Shelling Out: As Origens do Dinheiro


Copyright © 2002, 2005 by Nick Szabo


Resumo

Os precursores do dinheiro, juntamente com a linguagem, permitiram os primeiros humanos modernos resolverem problemas de cooperação que outros animais não podem – incluindo problemas de altruísmo recíproco, altruísmo familiar, e a mitigação de agressão. Esses precursores compartilhavam com as moedas não fiduciárias características muito específicas – não eram meramente objetos simbólicos ou decorativos.


Índice

  • Dinheiro

  • Colecionáveis

  • Evolução, Cooperação, e Colecionáveis

  • anhos de Transferência de Riqueza

  • Seguro contra a fome

  • Altruísmo Familiar Além do Túmulo

  • O Comércio Familiar

  • Despojos de Guerra

  • Disputas e Reparações

  • Atributos dos Colecionáveis

  • Conclusão

  • Referências

  • Agradecimentos

Dinheiro

Desde o primeiro momento, as colônias Inglesas do século 17, na América tinham um problema – a escassez de moedas[D94][T01] A ideia britânica era plantar grandes quantidades de tabaco, cortar madeiras para os navios da sua marinha global e mercante, e assim por diante, enviando em contrapartida os suprimentos que eles achavam que seriam necessários para manter os Americanos trabalhando.


Na verdade, os primeiros colonos trabalhavam na mesma companhia da qual compravam seus suprimentos. Os investidores e a Coroa preferiam isso à pagar em moedas o que o fazendeiro pudesse pedir, deixando que os produtores comprassem por si seus suprimentos – e, Deus me livre, ganhar um pouco como lucro também.


A solução para os colonos estava às mãos, mas levaram alguns anos para reconhecê-la. Os nativos tinham dinheiro, mas era uma forma bem diferente do dinheiro que os Europeus estavam acostumados. Índios Americanos usavam dinheiro por milênios, e um dinheiro que se tornou muito útil aos Europeus recém-chegados – apesar do preconceito de alguns que achavam que somente metal com o rosto de seus líderes políticos estampado que constitui dinheiro de verdade.


Pior, os nativos de New England não usavam nem ouro nem prata. Em vez disso, usavam como dinheiro aquilo que podia ser encontrado no meio ambiente – como partes de esqueleto duráveis de suas presas. Especificamente, eles usavam wampum, conchas do molusco e semelhantes, amarrados como pingentes em um colar.


Colar de wampum: Durante o comércio, as miçangas eram contadas, removidas, e remontadas em novos colares. As contas de concha dos Nativo-americanos eram também tecidas em cintos ou outros dispositivos cerimoniais e mnemônicos que demonstravam a riqueza e o comprometimento de uma tribo à um tratado.

Mexilhões são encontrados apenas no oceano, porém wampum foi comercializada bem no interior. Dinheiro de concha marítima de uma variedade de tipos podia ser encontrado em tribos por todo continente Americano. Os Iroqueses conseguiram coletar o maior tesouro de wampum de qualquer tribo, sem nunca ter se aventurado em qualquer lugar perto do habitat do molusco. [D94]


Apenas algumas tribos, como os Narragansett, especializaram-se em manufaturar wampum, enquanto que centenas de outras tribos, muitas de caçadores/coletores, o usavam. Colares de wampum vinham em uma variedade de tamanhos, com o número de contas proporcional ao tamanho. As contas poderiam ser cortadas ou juntadas para formar um colar de tamanho igual ao preço pago.


Depois de superado o desconforto sobre o que constituia dinheiro de verdade, os colonos começaram a comercializar selvagemente wampum. A palavra “clams” (mexilhões, amêijoas) entrou no vernáculo Americano como uma outra maneira de dizer “dinheiro”.


O governador Holandês de Nova Amsterdã (hoje Nova Yorke) tomou um grande empréstimo de um banco Anglo-Americano – em wampum. Depois de um tempo, as autoridade Britânicas foram forçadas a acompanhar. Então, entre 1637 e 1661, o wampum se tornou moeda legal na Nova Inglaterra. Os colonos agora tinham um meio de troca líquido, e o comércio floresceu nas colônias.[D94]


O começo do fim do wampum chegou quando os Ingleses começaram a enviar mais moedas às Américas, e os Europeus começaram a aplicar suas técnicas de produção em massa. Por volta de 1661, as autoridades Britânicas jogaram a toalha, e decidiram pagar em moedas do reino – sendo elas em ouro e prata legítimos, e sua cunhagem auditada e marcada pela Coroa, tinham ainda melhor qualidades monetárias que conchas.


Naquele ano o wampum deixou de ser moeda legal na Nova Inglaterra. Em 1710 se tornou moeda legal brevemente na Carolina do Norte. Continuou a ser usada como meio de troca, em alguns casos até no século 20 – porém seu valor foi inflado por cem vezes pelas técnicas de coleta e manufatura ocidentais, e gradualmente tomou o mesmo rumo que as jóias de ouro e prata tomaram no Ocidente depois da invenção da cunhagem de moedas – do dinheiro bem trabalhado, para a decoração.


A linguagem Americana do dinheiro de conchas se tornou um remanescente pitoresco – “a hundred clams” (cem conchas) se tornou “a hundred dollars” (cem dólares). “Shelling out” se tornou pagar em moedas ou notas, e eventualmente em cheque ou cartão[D94]. Nem imaginávamos que havíamos tocado nas próprias origens da nossa espécie.



Colecionáveis

O dinheiro nativo americano teve várias formas além de conchas. Peles, dentes, e uma variedade de outros objetos com propriedades que discutiremos abaixo também eram comumente usadas como meio de trocas. 12.000 anos atrás, onde hoje é o estado de Washington, o povo Clovis desenvolveu lâminas de sílex maravilhosamente longas. O único problema – elas quebram com muita facilidade. Eram inúteis para cortar.


As pederneiras estavam sendo feitas por “bel prazer” – ou pra algum outro propósito que não tinha nada a ver com cortar [G01]. Como veremos, essa aparente frivolidade era, muito provavelmente, de fato muito importante para sua sobrevivência.


Os nativos americanos não tinham, no entanto, sido os primeiros a fazer lâminas artísticas e inúteis, e também não inventaram dinheiro de concha. Nem os Europeus aliás, embora eles também tivessem, em eras passadas, usado conchas e dentes amplamente como dinheiro – para não mencionar gado, ouro, prata, armas, e muito mais.


Os asiáticos usaram tudo aquilo e faux axes emitidos por governos além disso, mas eles também importaram essa instituição. Arqueólogos encontraram pingentes de conchas datando do início do Paleolítico, que poderiam facilmente ter substituído o dinheiro Nativo Americano.


Contas feitas por conchas da lesma Nassarius kraussianus do tamanho de uma ervilha, que viviam num estuário próximo. Blombos Cave, África do Sul, 75,000 A.P.[B04]


No final dos anos 90, o arqueólogo Stanley Ambrose descobriu, em um abrigo de pedra no Vale Rift do Quênia, um cachê contendo contas feitas de casca de ovo de avestruz, lacunas vazias, e fragmentos de conchas. Elas são datadas usando a relação argônio-argônio (40Ar/39Ar) de pelo menos 40.000 anos de idade[A98].


Dentes furados de animais foram encontrados na Espanha também datando desse período.[W95] Conchas perfuradas também tem sido recuperadas de sítios do início do Paleolítico no Líbano[G95]. Recentemente, conchas comuns, preparadas em cordões de contas e ainda mais antigas, de 75.000 AP, foram encontradas em Blombos Cave, na África do Sul.[B04]


Contas de ovos de Avestruz, Rift Valley - Quênia, 40,000 A.P. (Cortesia Stanley Ambrose).


Nossas subespécies modernas haviam imigrado para a Europa e colares de conchas e dentes apareceram lá, de 40.000 A.P. em diante. Pingentes de conchas e dentes apareceram na Austrália de 30.000 A.P em diante[M93]. Em todos os casos, o trabalho é altamente habilidoso, indicando uma prática que provavelmente data de muito mais tempo atrás.


A origem de colecionar e decorar é muito possivelmente da África, a pátria originária de todas as subespécies anatomicamente modernas. Colecionar e fazer colares deve ter tido um importante benefício de seleção, uma vez que era custoso – a manufatura dessas conchas exigia tanto habilidade quanto tempo durante uma era em que os humanos viviam constantemente à beira da fome[C94].


Praticamente todas culturas humanas, até aquelas que não se envolvem em nenhum comércio substancial ou que usam formas mais modernas de dinheiro, fazem e apreciam joias, e valorizam certos objetos mais por suas qualidades herdadas ou artísticas do que por sua utilidade.


Nós humanos colecionamos colares de conchas e outros tipo de jóias – por bel prazer. Para os psicólogos evolucionistas uma explicação que humanos pelo “bel prazer” é, de fato, explicação nenhuma – mas o posicionamento de um problema. Por que tantas pessoas acham a coleção e o uso de jóias agradável? Para o psicólogo evolucionista, a questão se torna – o que causou esse prazer à evolução?


Detalhes de colar de um sepultamento em Sungir, Rússia, 28.000 AP. Contas interligadas e intercambiáveis. Cada conta de marfim de Mamute pode ter exigido uma ou duas horas de trabalho para manufaturar.[W97]



Evolução, Cooperação, e Colecionáveis

A psicologia evolucionista começa com uma descoberta matemática chave de John Maynard Smith[D89]. Usando modelos de populações de genes coevolutivos, de uma área bem desenvolvida da genética populacional, Smith postulou genes que podem codificar para estratégias, boas ou más, usadas em problemas estratégicos simples (os “jogos” da teoria dos jogos).


Smith provou que esses genes, competindo para se propagarem para as gerações futuras, desenvolverão estratégias que estão no Equilíbrio de Nash para os problemas estratégicos apresentados pela competição. Esses jogos incluem o dilema do prisioneiro, um problema prototípico de cooperação, e hawk/dove, um problema prototípico de agressão e sua mitigação.


É crítico para a teoria de Smith que esses jogos estratégicos, enquanto esgotados entre fenótipos aproximados, são de fato jogos entres genes no último nível – o nível de competição a ser propagada. Os genes – não necessariamente os indivíduos – influenciam o comportamento como se fossem limitadamente racionais (codificando para estratégias tão ótimas quanto possíveis, dentro dos limites do que os fenótipos podem expressar dadas as matérias-primas e história evolutiva anterior) e “egoístas” (para usar a metáfora de Richard Dawkins).


Influências genéticas no comportamento são adaptações para os problemas sociais apresentado pelos genes competindo através de seus fenótipos. Smith chamou esses Equilíbrios de Nash evoluídos de estratégias evolucionárias estáveis.


Os “epiciclos” construídos sobre a teoria da seleção individual anterior, como seleção sexual e seleção de parentesco, desaparecem dentro desse modelo mais genérico em que, de uma maneira Copérnica, coloca os genes ao invés dos indivíduos no centro da teoria. Por isso, a metafórica e geralmente incompreendida expressão de Dawkins, “gene egoísta”, para descrever a teoria de Smith.


Poucas outras espécies cooperaram como os humanos Paleolíticos. Em alguns casos – como cuidado das crias, as colônias de formigas, cupins, e abelhas, e assim por diante, cooperam porque são parentes – porque podem ajudar cópias dos seus “genes egoístas” encontrados nos seus semelhantes.


Em alguns casos altamente restritos, existe também cooperação entre não-semelhantes, o que os psicólogos evolucionistas chamam de altruísmo recíproco. Como descreve Dawkins[D89], a menos que uma troca de favores seja simultânea (algumas vezes até assim), uma parte ou outra pode trapacear. E geralmente o fazem. Esse é o resultado típico de um jogo que os teóricos chamam de O Dilema do Prisioneiro – se ambas partes cooperarem, as duas se saem melhores, porém se uma trapaceia, ela ganha às expensas do otário.


Em uma população de trapaceiros e otários, os trapaceiros sempre ganham. No entanto, algumas vezes os animais passam a cooperar através de interações repetidas e uma estratégia chamada Tit-for-Tat (‘olho-por-olho’, ‘na mesma moeda’): comece cooperando e permaneça cooperando até que a outra parte trapaceie – daí abandone. Essa ameaça de retaliação motiva a cooperação continuada.


As situações onde tal cooperação de fato ocorre no mundo animal são altamente restritas. A limitação principal é que tal cooperação é restrita a relacionamentos onde pelo menos um dos participantes é mais ou menos forçado a estar nas proximidades do outro. O caso mais comum é quando parasitas, e hospedeiros cujos corpos eles compartilham, evoluem para simbiontes.


Se os interesses dos parasita e do hospedeiro coincidem, de forma que os dois trabalhando conjuntamente seriam mais aptos do que sozinhos, (por exemplo o parasita está também fornecendo algum benefício ao hospedeiro), então, se eles conseguem jogar um jogo bem sucedido de Tit-for-Tat, eles evoluirão em simbiose – um estado onde seus interesses, e especialmente os mecanismos de saída dos genes de uma geração para a próxima, coincidem.


Eles se tornam como um organismo só. Todavia, há muito mais do que cooperação acontecendo aqui – há também exploração. Elas ocorrem simultaneamente. A situação é análoga a uma instituição que os humanos teriam desenvolvido – o tributo – que analisaremos abaixo.


Alguns casos muito especiais ocorrem sem envolver parasitas e hospedeiros compartilhando o mesmo corpo e evoluindo em simbiose. Em vez disso, eles envolvem animais sem parentesco e território altamente limitado. Um exemplo proeminente que Dawkins descreve são os peixe-limpadores. Esses peixes nadam dentro e fora das bocas de seus hospedeiros, se alimentando das bactérias ali, beneficiando o peixe hospedeiro.


O peixe hospedeiro poderia trapacear – ele poderia esperar o peixe-limpador terminar seu trabalho, e então comê-lo. Mas eles não o fazem. Uma vez que ambos são móveis, eles são ambos potencialmente livres para sair da relação. Porém, o peixe-limpador desenvolveu um senso muito forte de territorialidade individual, e têm listras e danças que são difíceis de imitar – como um logotipo de marca difícil de forjar.


Então o peixe hospedeiro sabe onde ir para ser limpo – e sabem que se trapacearem, eles terão de começar de novo com um peixe-limpador novo e desconfiado. Os custos de entrada, e deste modo também os custos de saída, de uma relação são altos, de maneira que funciona sem trapaça. Ademais, os peixes-limpadores são bem pequenos, então os benefícios de os comer não são grandes comparados a um número pequeno ou até uma única limpeza.


Um dos exemplos mais pertinentes é o morcego-vampiro. Como o nome sugere, são animais que sugam o sangue de presas mamíferas. O interessante é que, em uma noite boa, eles trazem um excedente; em uma noite ruim, nada. Seus negócios sombrios são altamente imprevisíveis. Como resultado, os morcegos sortudos (ou habilidosos) frequentemente compartilham sangue com os morcegos menos sortudos (ou habilidosos) em sua caverna. Eles vomitam o sangue e o grato beneficiário come.


A vasta maioria desses beneficiários são familiares. De 110 dessas regurgitações testemunhadas pelo biólogo de estômago forte G.S. Wilkinson, 77 eram casos de mães alimentando suas crianças, e a maioria dos outros casos também envolviam parentesco genético. Havia, porém, um pequeno número que não poderia ser explicado por altruísmo familiar.


Para demonstrar que esses eram casos de altruísmo recíproco, Wilkinson combinou as populações de morcegos de dois grupos diferentes. Os morcegos, com raras exceções, alimentavam somente amigos antigos do grupo original[D89]. Tal cooperação requer a construção de uma relação de longo prazo, ondes os parceiros interagem frequentemente, reconhecem um ao outro, e acompanham o comportamento uns dos outros. A caverna de morcegos ajuda a restringi-los a uma relação de longo prazo onde tais ligações podem se formar.


Veremos que alguns humanos também escolheram presas arriscadas e descontínuas, e compartilharam o excedente resultante com não-familiares. Na verdade, eles realizaram isso em uma extensão muito maior do que o morcego vampiro. Como eles o fazem, é o assunto principal de nosso artigo.


Dawkins sugere, “dinheiro é um token formal de altruísmo recíproco atrasado”, mas não persegue essa ideia fascinante mais além. Nós iremos.


Dentre pequenos grupos de humanos, a reputação pública pode tomar o lugar da retaliação por um único indivíduo para motivar a cooperação na reciprocidade atrasada. No entanto, crenças de reputação podem sofrer de dois tipos principais de erros – erros sobre qual pessoa fez o que, e erros na avaliação dos valores ou danos causados por aquele ato.


A necessidade de lembrar rostos e favores é um enorme obstáculo cognitivo, mas um que a maioria dos humanos considera relativamente fácil de superar. Reconhecer rostos é fácil, mas lembrar quando um favor ocorreu pode ser mais difícil. Lembrar dos detalhes a respeito de um favor que concedeu certo valor ao favorecido é mais difícil ainda. Evitar disputas e desentendimentos pode ser improvável ou proibitivamente difícil.


O problema de reconhecimento ou medida de valor é bastante amplo. Para humanos ele aparece em qualquer sistema de troca – reciprocidade de favores, escambo, dinheiro, crédito, emprego, ou compra em um mercado. É importante na extorsão, taxação, tributação, e na fixação de sanções judiciais. É importante até no altruísmo recíproco nos animais.


Consideres macacos trocando favores – vamos dizer pedaços de fruta por coçadas nas costas. A catação mútua pode remover carrapatos e pulgas que um indivíduo não consegue ver ou alcançar. Mas quanta catação versus quantos pedaços de fruta constituem uma reciprocidade que as duas partes considerem “justa”, ou em outras palavras uma não deserção? Vinte minutos de coçar as costas valem um pedaço de fruta ou dois? E quão grande o pedaço?


Até o simples caso de trocar sangue por sangue é mais complicado do que parece. Como os morcegos estimam o valor do sangue que eles recebem? Estimam o valor por peso, por carga, por gosto, pela habilidade de saciar a fome, ou outras variáveis? Da mesma forma, complicações de medição surgem até na simples troca de “você coça minhas costas e eu coço as suas”.


Para a vasta maioria das trocas em potencial, o problema de medição é intratável para animais. Ainda mais do que o problema mais fácil de lembrar rostos e os atribuir a favores, a habilidade das duas partes de concordar com precisão suficiente numa estimativa de valor de um favor é, primeiramente, a principal barreira ao altruísmo recíproco entre animais.


Apenas o kit de ferramentas de pedras de um homem do início do Paleolítico que tenha sobrevivido para encontrarmos, era de algum modo muito complicado, até para os cérebros do tamanho do nosso. Acompanhar os favores envolvendo eles – quem produzia qual qualidade de ferramenta para quem, e por consequência quem devia quem, e assim por diante – teria sido difícil demais fora dos limites do clã.


Adicionado a isso, provavelmente, uma grande variedade de objetos orgânicos, serviços efêmeros (como a catação), e assim por diante que não sobreviveram. Depois de mesmo uma pequena fração desses bens terem sido transferidos e serviços performados, nosso cérebro, tão inflados quanto sejam, não conseguiria acompanhar quem deve o que pra quem.


Hoje, frequentemente escrevemos essas coisas – mas o homem Paleolítico não tinha a escrita. Se ocorreu cooperação entre clãs e até tribos, como o registro arqueológico indica que de fato ocorreu, o problema se torna muito pior, uma vez que tribos caçadoras-coletoras eram geralmente antagônicas e mutuamente desconfiadas.


Se conchas podem ser dinheiro, pele pode ser dinheiro, ouro pode ser dinheiro e assim por diante – se dinheiro não é somente moedas ou notas emitidas por um governo sob a legislação aplicável, mas ao invés disso pode ser uma variedade de objetos – então o que afinal de contas é o dinheiro? E por que os humanos, frequentemente vivendo à beira da fome, gastam tanto tempo fazendo e apreciando esses colares quando poderiam estar coletando e caçando mais?


O economista do século 19, Carl Menger[M1892], descreveu inicialmente como o dinheiro evolui natural e inevitavelmente de um volume suficiente de troca(escambo) de commodities. Em termos da economia moderna a história é similar à de Menger.


Escambo requer uma coincidência de interesses. Alice produz nozes e quer algumas maçãs; Bob produz maçãs e quer algumas nozes. Acontece de seus pomares estarem próximos , e Alice confia em Bob o suficiente para esperar o tempo entre a colheita de nozes e a de maçã.


Assumindo que todas essas condições sejam atendidas, o escambo funciona muito bem. Mas se Alice estivesse produzindo laranjas, mesmo se Bob quisesse laranjas bem como nozes, eles estariam sem sorte – laranjas e nozes não crescem bem no mesmo clima. Se Alice e Bob não confiassem um no outro, e não pudessem encontrar uma terceira parte para ser intermediário[L94] ou fazer um cumprir um contrato, eles também estariam sem sorte.


Outras complicações podem surgir. Alice e Bob não podem articular completamente uma promessa de venda futura de nozes ou maçãs, porque entre outras possibilidades, Alice poderia ficar com as melhores nozes para si mesma (e Bob com as melhores maçãs), dando ao outro as escórias.


Comparando as qualidades assim como as quantidades de dois tipos diferentes de bens é ainda mais difícil quando o estado de um dos bens é apenas uma memória. Além disso, nenhum dos dois pode antecipar eventos como uma colheita ruim. Essas complicações aumentam o problema de Alice e Bob decidirem enquanto separados, se o altruísmo recíproco tem sido realmente recíproco.


Esses tipos de complicações aumentam conforme quão maior o intervalo de tempo e quanta incerteza entre a transação original e a recíproca. Um problema relacionado é que, como diriam os engenheiros, escambo “não é escalável”. Escambo funciona bem em poucos volumes mas se torna cada vez mais caro em grandes volumes, até que se torna caro demais para valer a pena.


Se existem n bens e serviços para troca, um mercado de escambo requer n2 preços. Cinco produtos requerem vinte e cinco preços, o que não seria tão ruim, mas 500 produtos requerem 250.000 preços, que vai muito além do que é prático pra um pessoa acompanhar. Com dinheiro, só existem n preços – 500 produtos, 500 preços.


O dinheiro, com esse propósito, pode trabalhar tanto como um meio de troca ou simplesmente como um padrão de valor – contanto que o número de preços em dinheiro não cresça demais pra memorizar ou mude com muita frequência. (O último problema, juntamente com um “contrato” de seguro implícito, juntamente com a falta de um mercado competitivo podem explicar porque os preços eram geralmente determinados por um costume evoluído de longo tempo e não por negociação aproximada).


O escambo requer, em outras palavras, coincidências de demandas ou habilidades, preferências, tempo, e baixo custo de transferência. Seus custos aumentam muito mais rapidamente do que o crescimento no número de bens trocados. O escambo certamente funciona muito melhor do que nenhuma troca em absoluto, e tem sido amplamente praticado. Mas é bastante limitado comparado a trocar com dinheiro.


O dinheiro primitivo existia muito antes das redes de comércio de grande escala. O dinheiro teve um uso ainda anterior e muito mais importante. O dinheiro melhorou muito o funcionamento. A coincidência simultânea de preferências era muito mais rara do que a coincidência através de longos períodos de tempo.


Com dinheiro Alice poderia coletar para Bob durante o amadurecimento dos mirtilos este mês, e Bob caçar para Alice durante a migração dos rebanhos de mamute seis meses depois, sem precisar ter que recordar quem deve o quê para quem, ou confiar na honestidade ou memória do outro.


O investimento de uma mãe na educação infantil poderia ser assegurado por presentes de valores inforjáveis. O dinheiro converte o problema de divisão do trabalho de um dilema de prisioneiro para uma simples troca.


O proto dinheiro, usado por muitas tribos de caçadores e coletores é bem diferente do dinheiro moderno, que agora serve um papel diferente na nossa cultura moderna, e ele tinha uma função provavelmente limitada a pequenas redes de troca e outras instituições locais discutidas abaixo.


Chamarei esse dinheiro de colecionáveis ao invés de dinheiro propriamente dito. Os termos usados na literatura antropológica para tais objetos são geralmente ou “dinheiro”, definido mais amplamente do que apenas notas e moedas emitidas por governos, todavia mais estreitamente do que “colecionável”, como usamos estreitamente neste artigo, ou o termo vago “bem de valor”, que as vezes se refere a itens que não são colecionáveis no sentido dessa dissertação.


As razões para escolher o termo colecionável ante outros possíveis nomes para proto dinheiro se tornarão mais aparentes. Os colecionáveis tinham atributos bem específicos. Eles não eram meramente simbólicos. Enquanto os objetos concretos e os atributos avaliados como colecionáveis poderiam variar entre as culturas, eles estavam longe de serem arbitrários.


A primeira e mais importante função evolucionária dos colecionáveis era como um meio de armazenar e transferir riqueza. Alguns tipos de colecionáveis, como o wampum, poderiam ter sido bastante funcionais como o dinheiro da forma que nós modernos conhecemos, onde as condições econômicas e sociais estimularam o comércio. Ocasionalmente, usarei os termos “proto dinheiro” e “dinheiro primitivo” intercambiavelmente com “colecionável” ao discutir meios de transferência de riqueza antes do sistema de cunhagem.



Ganhos de Transferência de Riqueza

Pessoas, clãs ou tribos fazem trocas voluntas porque os dois lados acreditam estar ganhando algo. Suas crenças a respeito do valor podem mudar depois da troca, por exemplo quando adquirem experiência com o bem ou serviço. Mas suas crenças na hora da troca, embora imprecisas até certa medida quanto ao valor, ainda são geralmente corretas quanto à existência de ganho.


Especialmente no início do comércio inter tribal, restrito á itens de alto valor, havia um forte incentivo para cada parte acertar suas crenças. Dessa forma, o comércio quase sempre beneficiou ambas as partes. O comércio criava tanto valor como o ato físico de fazer algo.

Porque indivíduos, clãs, e tribos variam em suas preferências, variam em sua habilidade de satisfazer essas preferências, e variam nas crenças que têm a respeito dessas habilidades e preferências e os objetos que são consequentes delas, por isso, há sempre ganhos a serem obtidos através do comércio.


Se os custos de fazer essas trocas – custos de transação – são baixos o suficiente para fazer com que os negócios valham a pena é outra questão. Em nossa civilização, temos muito mais possibilidades de troca do que durante a maior parte da história humana. No entanto, como veremos alguns tipo de trocas valiam mais do que os custos de transação, para algumas culturas, provavelmente voltando na origem do homo sapiens sapiens.


Trocas voluntárias não são os únicos tipos de transação que se beneficiam de baixos custos de transação. Essa é a chave para entender a origem e evolução do dinheiro. Heranças de família poderiam ser usadas como garantia para remover o risco do crédito de trocas atrasadas. A habilidade de uma tribo vitoriosa de extrair tributos de uma derrotada era de grande benefício ao vencedor. A habilidade do vencedor de coletar tributos beneficiou-se dos mesmos tipos de técnicas de custo de transação que o comércio.


Da mesma forma que o requerente em uma avaliação dos danos por ofensas contra os costumes ou a lei, e grupos de parentesco que organizam um casamento. Os familiares também se beneficiaram de presentes de riqueza oportunos e pacíficos através de herança. Os principais acontecimentos da vida humana que as culturas modernas segregam do mundo do comércio beneficiaram-se não menos que o comércio, e algumas vezes até mais, de técnicas que baixaram os custos de transação. Nenhuma dessas técnicas foi mais efetiva, importante, ou anterior que o dinheiro primitivo – colecionáveis.


Quando o H. sapiens sapiens deslocou o H. sapiens neanderthalis, explosões populacionais seguiram-se. Evidências da ocupação na Europa, c. 40.000 a 35.000 A.P, indicam que o H. sapiens sapiens aumentou a capacidade de carga de seu ambiente por um fator de 10 sobre o H. sapiens neanderthalis – isto é, a densidade populacional cresceu dez vezes[C94].


Não somente isso, os recém-chegados tiveram tempo livre para criar a primeira arte do mundo – como as maravilhosas pinturas das cavernas, uma ampla variedade de figuras bem trabalhadas – e, claro, os maravilhosos pingentes e colares de conchas marinhas, dentes, e casca de ovos.


Esses objetos não eram decorações inúteis. Transferências de riqueza recentemente efetivas, possibilitadas por colecionáveis, assim como outros avanços prováveis da época, como a linguagem, criaram novas instituições culturais que, muito provavelmente, desempenharam um papel importante no aumento das populações.


Os recém-chegados, H. sapiens sapiens, tinham o cérebro do mesmo tamanho, ossos mais fracos, e músculos menores do que os Neandertais. Suas ferramentas de caça eram mais sofisticadas, mas em 35.000 A.P elas eram basicamente as mesmas ferramentas – não eram nem duas vezes melhores, muito menos dez vezes mais eficazes.


A maior diferença pode ter sido as transferências de riqueza mais efetivas ou até tornadas possíveis, pelos colecionáveis. O H. sapiens sapiens tinha prazer em colecionar conchas, fazer jóias com elas, exibí-las, e trocá-las. O H. sapiens neanderthalis, não. A mesma dinâmica teria estado em funcionamento, dezenas de milhares de anos anteriormente, no Serengeti, quando o H. sapiens sapiens apareceu pela primeira vez naquele turbilhão dinâmico de evolução humana, a África.


Descreveremos como os colecionáveis diminuíram os custos de transação em cada tipo de transferência de riqueza – no presente gratuito da herança, no comércio mútuo voluntário ou casamento, e nas transferências involuntárias de ajustes legais e tributos.


Todos esses tipos de transferência de valor ocorreram em muitas culturas da pré história humana, provavelmente desde a origem do Homo sapiens sapiens. Os ganhos a serem obtidos, por um ou ambos os lados, a partir dessas transferências de riqueza de grandes eventos da vida, eram tão grandes que elas ocorriam apesar dos altos custos de transação.


Comparado ao dinheiro moderno, o dinheiro primitivo tinha uma velocidade muito pequena – poderia ser transferido apenas um punhado de vezes na vida média de um indivíduo. No entanto, um colecionável durável, o que hoje chamaríamos de herança, poderia persistir por muitas gerações e agregar valor substancial em cada transferência – muitas vezes possibilitando até a transação em absoluto. As tribos, portanto, gastavam bastante tempo em tarefas aparentemente frívolas de fabricar e explorar por matéria-prima de jóias e outros colecionáveis


O Circuito Kula


A rede de trocas do Kula da Melanésia pré-colonial. Os objetos de valor do kula dobraram como dinheiro de “alta potência” e mnemônicos de histórias e fofoca. Muitos dos bens trocados, a maioria produtos agrícolas, estavam disponíveis em diferentes épocas, e então não poderiam ser trocados em espécie. Os colecionáveis do Kula resolviam esse problema da dupla coincidência com um dinheiro custosamente inforjavel, vestível (para a segurança), e circulado (literalmente). Colares circulavam no sentido horário, braceletes no sentido anti-horário, em um padrão bastante regular. Ao resolver o problema da dupla coincidência um bracelete ou colar se provaria mais valioso que seu custo depois de apenas algumas trocas, mas poderia circular por décadas. As fofocas e histórias sobre os donos anteriores dos colecionáveis ainda fornecia informações sobre crédito e liquidez . Em outras culturas Neolíticas, os colecionáveis, usualmente conchas, circularam em um padrão menos regular mas tinham propósitos e atributos similares.[L94]


Bracelete de Kula (mwali).


Colares de Kula (bagi).



Para qualquer instituição na qual a transferência de riqueza é um componente importante, nós perguntaremos as seguintes questões:

  1. Qual coincidência de tempo entre o evento, a oferta do bem transferido, e a demanda pelo bem transferido foi necessária? Quão improvável ou quão alta é a barreira à transferência de riqueza que a improbabilidade da coincidência representa?

  2. As transferências de riqueza formariam um loop fechado de colecionáveis, baseados apenas naquela instituição, ou seriam necessárias outras instituições de transferência de riqueza para completar os ciclos de circulação? Levar a sério o gráfico de fluxo real da circulação monetária é crítico para entender o aparecimento do dinheiro. A circulação geral entre uma ampla variedade de trocas não existiu e nem existiria na maior parte da pré história humana. Sem loops completos e repetidos os colecionáveis não circulariam e perderiam seu valor. Um colecionável, para valer a pena fazer, teria que adquirir valor em transações suficientes para amortizar seu custo

Devemos primeiro examinar o tipo de transferência mais familiar e economicamente importante para nós hoje – o comércio.


Seguro contra a fome

Bruce Winterhalder[W98] pesquisa modelos de como e por quê a comida é algumas vezes transferida entre animais: roubo tolerado, produção/adulação/oportunismo, subsistência sensível ao risco, mutualismo de subproduto, reciprocidade atrasada, comércio/troca não em espécie, e outros modelos de seleção (incluindo altruísmo familiar).


Aqui, focaremos em subsistência sensível ao risco, reciprocidade atrasada, e comércio (trocas não em espécie). Argumentamos que substituir a troca de comida por colecionáveis para reciprocidade atrasada pode aumentar o compartilhamento de comida. Isso acontece ao mitigar os riscos de uma oferta variável de comida enquanto evitam os problemas largamente intransponíveis de reciprocidade atrasada entre bandos. Trataremos do altruísmo familiar e roubo (tolerado ou não) em contextos mais amplos abaixo.


O alimento é muito mais valioso para pessoas famintas do que para os bem alimentados. Se o homem faminto pode salvar sua vida ao trocar seus bens mais valiosos, pode valer pra ele meses ou até anos de trabalho que podem demorar a recuperar aquele valor. Ele vai usualmente considerar a sua vida muito mais valiosa do que o valor sentimental de suas heranças.


Como a gordura em si, os colecionáveis podem providenciar um seguro contra a escassez de alimentos. A fome da escassez local poderia ser evitada pelo menos de duas maneiras diferentes de troca – por alimento em si, ou por direitos de caça ou forrageamento.


Mesmo assim, os custos de transação eram geralmente muito altos – os bandos eram muito mais propensos a lutar do que confiar uns nos outros. O bando faminto que não achasse sua própria comida usualmente morria de fome. No entanto, se os custos de transação pudessem ser baixados, ao diminuir a necessidade de confiança entre os bandos, o alimento que valia um dia de trabalho para um bando poderia valer alguns meses de trabalho para o bando faminto.


As trocas, locais, mas extremamente valiosas eram, argumenta esse ensaio, possibilitadas dentre várias culturas pelo advento dos colecionáveis, no tempo do Paleolítico Superior. Os colecionáveis substituíram os relacionamentos de confiança de longo prazo necessários, mas inexistentes.

Se tivesse existido um alto grau de interação sustentada e confiança entre tribos, ou indivíduos de diferentes tribos, para que pudessem dar crédito sem garantias um ao outro, isso teria estimulado um escambo atrasado.


No entanto, tal nível de confiança naquele tempo era altamente implausível – pelas razões apresentadas acima a respeito de altruísmo recíproco, confirmados por evidências empíricas de que a maioria das relações tribais dos coletores/caçadores têm sido observadas como bastante antagônicas.


Bandos caçadores/coletores usualmente se dividiam em bandos menores durante a maior parte do ano, e se reuniam em “agregados”, algo como as feiras medievais Europeias, durante algumas semanas ao longo do ano. Apesar da falta de confiança entre os bandos, um importante comércio de materiais, do tipo ilustrado na figura que acompanha, quase certamente ocorreu na Europa e provavelmente em outros lugares, tais como com os grandes caçadores da América e África.


O cenário ilustrado pela figura abaixo é hipotético, mas seria muito surpreendente se não tivesse ocorrido. Enquanto muitos Europeus até no Paleolítico apreciaram usar colares de conchas, muitos viviam no interior e faziam seus colares dos dentes de suas presas. Pederneiras, machados, peles, e outros colecionáveis também eram muito provavelmente usados como meios de troca.


Renas, bisões, e outras presas humanas migravam em diferentes épocas do ano. Tribos diferentes se especializaram em presas diferentes, ao ponto que 90%, e algumas vezes tanto quanto 99%, dos restos mortais de muitos sítios durante o Paleolítico na Europa vem de uma única espécie[C94]. Isso indica pelo menos uma especialização sazonal e talvez até especialização integral por uma tribo em uma única espécie.


Na medida em que se especializaram, os membros de uma única tribo teriam se tornado peritos no comportamento, hábitos de migração, e outros padrões relativos àquela espécie em particular de presa, assim como nas ferramentas e técnicas especializadas para caçá-la.


Algumas tribos observadas em tempos recentes são conhecidas por terem se especializado. Algumas tribos de Índios Norte Americanos se especializaram respectivamente em caçar bisões, antílopes, e na pesca de salmão. No norte da Rússia e partes da Finlândia, muitas tribos, incluindo os Lapões ainda hoje, especializaram-se em pastorear um única espécie de Rena.


Tal especialização era provavelmente muito maior quando mais presas maiores (cavalo, auroque, alce gigante, bisão, preguiça gigante, mastodonte, mamute, zebra, elefante, hipopótamo, girafa, boi almiscarado, etc.) vagueavam pela América do Norte, Europa, e África em grandes rebanhos durante o Paleolítico.


Grandes animais selvagens sem medo de seres humanos já não existem mais. Durante o Paleolítico eles foram ou extintos ou se adaptaram a ter medos dos seres humanos e seus projéteis. No entanto, durante a maior parte do período de vida do H. sapiens sapiens, esses rebanhos eram abundantes e escolhas fáceis para caçadores especializados.


De acordo com a nossa teoria da predação baseada no comércio, a especialização era muito mais provável quando grandes presas percorriam a América do Norte, a Europa e a África em grandes rebanhos durante o Paleolítico. A divisão do trabalho baseada no comércio de caça entre tribos é consistente com (embora não confirmada com segurança) a evidência arqueológica do Paleolítico na Europa.


Esses bandos migratórios, seguindo seus rebanhos, frequentemente interagiam, criando muitas oportunidades para o comércio. Índios Americanos preservavam alimentos secando, fazendo pemmican, e assim por diante, de maneiras que duravam alguns meses mas normalmente não um ano inteiro. Essa comida era comumente trocada, juntamente com peles, armas, e colecionáveis. Geralmente esse comércio ocorria durante expedições anuais de trocas[T01].


Grandes rebanhos de animais migravam através de um território somente duas vezes por ano, com uma janela, na maioria das vezes, de um ou dois meses. Sem nenhuma outra fonte de proteína que não a sua própria espécie de presa, essas tribos especialistas teriam morrido de fome. O alto grau de especialização demonstrado nos registros arqueológicos poderiam somente ter ocorrido se houvesse comércio.


Assim, mesmo que o escambo de carne com compensação de tempo fosse o único tipo de comércio, isso é suficiente para tornar o uso de colecionáveis bastante interessante. Os colares, pederneiras, e quaisquer outros objetos usados como dinheiro circulam em um loop fechado, indo e voltando, em quantidades aproximadamente iguais desde que o valor da carne negociada permaneça aproximadamente igual.


Note que não é suficiente, para que a teoria dos colecionáveis apresentadas neste trabalho esteja correta, que trocas benéficas únicas tenham sido possíveis. Nós devemos identificar loops fechados de comércio mutuamente benéficos. Com loops fechados os colecionáveis continuam a circular, amortizando seus custos.


Como mencionado, sabemos através de restos arqueológicos que muitas tribos se especializaram em únicas espécies de grandes presas. Essa especialização foi no mínimo sazonal; se houve trocas mais extensivas pode ter sido integral. Ao se tornar perita nos hábitos e padrões de migração, e nos melhores métodos de derrubada, uma tribo obtém enormes benefícios produtivos.


Esses benefícios, no entanto, seriam normalmente inatingíveis, pois se especializar em um única espécie significaria ficar sem comida pela maior parte do ano. A divisão do trabalho entre as tribos compensou – e o comércio tornou isso possível. O suprimento de comida quase dobraria através do comércio apenas entre duas tribos complementares.


Existiam, entretanto, ao invés de duas espécies de presa, muitas vezes até uma dúzia migrando através da maioria dos territórios de caça em áreas, como o Serengeti e o estepe Europeu. A quantidade de carne disponível para uma tribo especializada seria, portanto, mais do que dobrada com tal comércio entre um punhado de tribos vizinhas.


Além disso, a carne extra estaria lá quando mais se precisasse - quando a carne das presas da tribo já tivesse sido comida, e sem comida os caçadores morreriam de fome. Então, havia pelo menos quatro ganhos, ou fontes de excedente, de um ciclo de comércio tão simples quanto duas espécies de presas e duas trocas não simultâneas, mas compensadoras. Esses ganhos são distintos mas não necessariamente independentes:

  1. Uma fonte de carne disponível em uma época do ano em que, de outra forma, passaria-se fome.

  2. Um aumento na oferta total de carne – eles negociavam o excedente além do que poderiam comer ou guardar;

  3. Um aumento na variedade nutricional da carne, ao comer diferentes tipos de carne.

  4. Produtividade aumentada pela especialização em uma única espécie de presa.

Fazer ou guardar colecionáveis para trocar por alimento não era a única maneira de se assegurar contra tempos ruins. Talvez até mais comum, especialmente onde não existiam grandes presas, era a territorialidade combinada com o comércio de direitos de forrageamento. Isso pode ser observado até em algumas culturas restantes de caçadores/coletores que existem hoje.


Os !Kung San do Sul da África, como todos outros remanescentes modernos das culturas de caçadores-coletores, vivem em terras marginais. Eles não têm oportunidade de ser especialistas mas devem pegar os parcos restos disponíveis. Assim, eles podem estar bem descaracterizados das muitas culturas ancestrais de caçadores-coletores, e descaracterizados do Homo sapien sapiens original, que primeiramente tomou as terras mais exuberantes e melhores rotas de caça do Homo sapiens neanderthalis e somente muito depois expulsou os Neandertais das terras marginais. No entanto, apesar de sua severa deficiência ecológica, os !Kung usam colecionáveis como itens de troca.


Como a maioria dos caçadores-coletores, os !Kung passam a maior parte do ano em bandos pequenos e dispersos e algumas semanas do ano em agregação com vários outros bandos. A agregação é como uma feira com algumas características a mais – o comércio é realizado, as alianças são cimentadas, as parcerias fortalecidas e os casamentos transacionados. A preparação para a agregação é cheia de manufatura de itens comercializáveis, parcialmente utilitários mas majoritariamente de natureza colecionável. O sistema de troca, chamado pelo !Kung de hxaro, envolve um troca substancial em jóias de contas, incluindo pingentes de casca de ovo de avestruz, bastante semelhantes aos encontrados na África há 40.000 anos.


Padrão de trocas hxaro e relações familiares entre tribos vizinhas dos caçadores-coletores !Kung San. (em azul escuro: somente troca I em vermelho: somente parentesco | em azul-turquesa: ambos)


Colares usados nas trocas hxaro.


Uma das coisas mais importantes que os !Kung compram e vendem com seus colecionáveis são os direitos abstratos de entrar no território de outro bando e caçar ou coletar alimentos lá. O comércio desses direitos é especialmente vivo durante a escassez local, que pode ser aliviada pela busca de alimentos no território de um vizinho.[W77][W82] Os bandos de !Kung marcam seus territórios com flechas; invadir sem ter comprado o direito de entrar e forragear equivale a uma declaração de guerra. Como o comércio de alimentos discutido acima, o uso de colecionáveis para adquirir direitos de forrageamento constitui uma “política de seguro contra a fome”, para usar a frase de Stanley Ambrose[A98].


Ainda que humanos anatomicamente modernos certamente tinham pensamento, linguagem, e alguma habilidade de planejamento, teria sido pouco necessário pensamento consciente ou linguagem, e muito pouco planejamento, para gerar comércio. Não era necessário os membros das tribos raciocinarem sobre os benefícios de nada além de uma única troca.


Para criar essa instituição, teria sido suficiente as pessoas seguirem seus instintos de fazer ou obter colecionáveis com as características destacadas abaixo (como indicado por observações representativas que fazem estimativas aproximadas para estas características). Isso é, em vários níveis, verdadeiro nas outras instituições que estudaremos – elas evoluíram, ao invés de serem conscientemente projetadas.


Ninguém nos rituais da instituição teria explicado sua função em termos de última função evolutiva; em vez disso, eles explicavam em termos de uma ampla variedade de mitologias que serviam mais como motivadores imediatos de comportamento do que como teorias de finalidade ou origem.


A evidência direta de trocas em alimentos há muito decaiu. Poderemos, no futuro, encontrar mais evidências diretas do que há disponível hoje para este artigo, através da comparação de restos de caça em uma tribo com os padrões de consumo em outra tribo – a parte mais difícil dessa tarefa é provavelmente identificar as fronteiras de diferentes tribos ou grupos familiares.


De acordo com nossa teoria, tal comércio de carne de uma tribo com outra era comum em muitas partes do mundo durante o Paleolítico, onde ocorria a caça em grande escala e especializada em grandes presas.


Atualmente, temos extensivas evidências indiretas de trocas, através do movimento dos colecionáveis em si. Felizmente, existe uma boa correlação entre a durabilidade desejável para os colecionáveis e as condições sob as quais um artefato sobreviveu para ser encontrado pelos arqueólogos de hoje.


No início do Paleolítico, quando toda a movimentação humana era a pé, nós temos casos de conchas marinhas perfuradas encontradas até 500 quilômetros de distância da fonte mais próxima[C94]. Houve um movimento de longa distância similar de sílex.


Infelizmente, o comércio era severamente restringido por custos altos de transação na maioria das vezes e lugares. A barreira primária era o antagonismo entre as tribos. A relação predominante entre as tribos era de desconfiança nos dias bons e violência absoluta em dias ruins. Somente os laços de casamento ou de parentesco poderiam levar as tribos a um relacionamento de confiança, embora apenas ocasionalmente e de alcance limitado.


A baixa capacidade de proteger a propriedade, até mesmo os colecionáveis usados na pessoa ou enterrados em cachês bem escondidos, significava que os colecionáveis precisavam amortizar seus custos em poucas transações.


O comércio, então, não era o único tipo de transferência de riqueza, e provavelmente não era o tipo mais importante durante a longa pré-história humana, quando os altos custos de transação evitavam o desenvolvimento dos tipos de mercados, firmas, e outras instituições econômicas que hoje subestimamos[L94].


Sob nossas grandes instituições econômicas estão instituições muito mais antigas envolvidas com transferência de riqueza – em tempos pré-históricos, as principais formas de transferência de riqueza. Todas essas instituições distinguiram o Homo sapiens sapiens de animais anteriores. Nós agora nos voltamos para um dos tipos mais básicos de transferência de riqueza que nós humanos subestimamos, mas que nenhum outro animal tem – passar riqueza para a próxima geração.


Altruísmo Familiar Além do Túmulo

A coincidência em tempo e local de oferta e demanda para o comércio era rara – tanto, que a maioria dos tipos de comércio e instituições econômicas baseadas em troca que hoje subestimamos não poderia existir. Mais improvável ainda era a coincidência tripla de oferta, demanda, com um grande evento para um grupo de parentesco – a formação de uma nova família, morte, crime, vitória ou derrota em guerra.


Como veremos, clãs, e indivíduos muito se beneficiaram de oportunas transferências de riqueza durante esses eventos. Essa transferência de riqueza, por sua vez, era muito menos dispendiosa quando se tratava da transferência de uma reserva de riqueza mais durável e geral do que os consumíveis ou ferramentas projetadas para outros fins.


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