Shelling Out: As Origens do Dinheiro


Copyright © 2002, 2005 by Nick Szabo


Resumo

Os precursores do dinheiro, juntamente com a linguagem, permitiram os primeiros humanos modernos resolverem problemas de cooperação que outros animais não podem – incluindo problemas de altruísmo recíproco, altruísmo familiar, e a mitigação de agressão. Esses precursores compartilhavam com as moedas não fiduciárias características muito específicas – não eram meramente objetos simbólicos ou decorativos.


Índice

  • Dinheiro

  • Colecionáveis

  • Evolução, Cooperação, e Colecionáveis

  • anhos de Transferência de Riqueza

  • Seguro contra a fome

  • Altruísmo Familiar Além do Túmulo

  • O Comércio Familiar

  • Despojos de Guerra

  • Disputas e Reparações

  • Atributos dos Colecionáveis

  • Conclusão

  • Referências

  • Agradecimentos

Dinheiro

Desde o primeiro momento, as colônias Inglesas do século 17, na América tinham um problema – a escassez de moedas[D94][T01] A ideia britânica era plantar grandes quantidades de tabaco, cortar madeiras para os navios da sua marinha global e mercante, e assim por diante, enviando em contrapartida os suprimentos que eles achavam que seriam necessários para manter os Americanos trabalhando.


Na verdade, os primeiros colonos trabalhavam na mesma companhia da qual compravam seus suprimentos. Os investidores e a Coroa preferiam isso à pagar em moedas o que o fazendeiro pudesse pedir, deixando que os produtores comprassem por si seus suprimentos – e, Deus me livre, ganhar um pouco como lucro também.


A solução para os colonos estava às mãos, mas levaram alguns anos para reconhecê-la. Os nativos tinham dinheiro, mas era uma forma bem diferente do dinheiro que os Europeus estavam acostumados. Índios Americanos usavam dinheiro por milênios, e um dinheiro que se tornou muito útil aos Europeus recém-chegados – apesar do preconceito de alguns que achavam que somente metal com o rosto de seus líderes políticos estampado que constitui dinheiro de verdade.


Pior, os nativos de New England não usavam nem ouro nem prata. Em vez disso, usavam como dinheiro aquilo que podia ser encontrado no meio ambiente – como partes de esqueleto duráveis de suas presas. Especificamente, eles usavam wampum, conchas do molusco e semelhantes, amarrados como pingentes em um colar.


Colar de wampum: Durante o comércio, as miçangas eram contadas, removidas, e remontadas em novos colares. As contas de concha dos Nativo-americanos eram também tecidas em cintos ou outros dispositivos cerimoniais e mnemônicos que demonstravam a riqueza e o comprometimento de uma tribo à um tratado.

Mexilhões são encontrados apenas no oceano, porém wampum foi comercializada bem no interior. Dinheiro de concha marítima de uma variedade de tipos podia ser encontrado em tribos por todo continente Americano. Os Iroqueses conseguiram coletar o maior tesouro de wampum de qualquer tribo, sem nunca ter se aventurado em qualquer lugar perto do habitat do molusco. [D94]


Apenas algumas tribos, como os Narragansett, especializaram-se em manufaturar wampum, enquanto que centenas de outras tribos, muitas de caçadores/coletores, o usavam. Colares de wampum vinham em uma variedade de tamanhos, com o número de contas proporcional ao tamanho. As contas poderiam ser cortadas ou juntadas para formar um colar de tamanho igual ao preço pago.


Depois de superado o desconforto sobre o que constituia dinheiro de verdade, os colonos começaram a comercializar selvagemente wampum. A palavra “clams” (mexilhões, amêijoas) entrou no vernáculo Americano como uma outra maneira de dizer “dinheiro”.


O governador Holandês de Nova Amsterdã (hoje Nova Yorke) tomou um grande empréstimo de um banco Anglo-Americano – em wampum. Depois de um tempo, as autoridade Britânicas foram forçadas a acompanhar. Então, entre 1637 e 1661, o wampum se tornou moeda legal na Nova Inglaterra. Os colonos agora tinham um meio de troca líquido, e o comércio floresceu nas colônias.[D94]


O começo do fim do wampum chegou quando os Ingleses começaram a enviar mais moedas às Américas, e os Europeus começaram a aplicar suas técnicas de produção em massa. Por volta de 1661, as autoridades Britânicas jogaram a toalha, e decidiram pagar em moedas do reino – sendo elas em ouro e prata legítimos, e sua cunhagem auditada e marcada pela Coroa, tinham ainda melhor qualidades monetárias que conchas.


Naquele ano o wampum deixou de ser moeda legal na Nova Inglaterra. Em 1710 se tornou moeda legal brevemente na Carolina do Norte. Continuou a ser usada como meio de troca, em alguns casos até no século 20 – porém seu valor foi inflado por cem vezes pelas técnicas de coleta e manufatura ocidentais, e gradualmente tomou o mesmo rumo que as jóias de ouro e prata tomaram no Ocidente depois da invenção da cunhagem de moedas – do dinheiro bem trabalhado, para a decoração.


A linguagem Americana do dinheiro de conchas se tornou um remanescente pitoresco – “a hundred clams” (cem conchas) se tornou “a hundred dollars” (cem dólares). “Shelling out” se tornou pagar em moedas ou notas, e eventualmente em cheque ou cartão[D94]. Nem imaginávamos que havíamos tocado nas próprias origens da nossa espécie.



Colecionáveis

O dinheiro nativo americano teve várias formas além de conchas. Peles, dentes, e uma variedade de outros objetos com propriedades que discutiremos abaixo também eram comumente usadas como meio de trocas. 12.000 anos atrás, onde hoje é o estado de Washington, o povo Clovis desenvolveu lâminas de sílex maravilhosamente longas. O único problema – elas quebram com muita facilidade. Eram inúteis para cortar.


As pederneiras estavam sendo feitas por “bel prazer” – ou pra algum outro propósito que não tinha nada a ver com cortar [G01]. Como veremos, essa aparente frivolidade era, muito provavelmente, de fato muito importante para sua sobrevivência.


Os nativos americanos não tinham, no entanto, sido os primeiros a fazer lâminas artísticas e inúteis, e também não inventaram dinheiro de concha. Nem os Europeus aliás, embora eles também tivessem, em eras passadas, usado conchas e dentes amplamente como dinheiro – para não mencionar gado, ouro, prata, armas, e muito mais.


Os asiáticos usaram tudo aquilo e faux axes emitidos por governos além disso, mas eles também importaram essa instituição. Arqueólogos encontraram pingentes de conchas datando do início do Paleolítico, que poderiam facilmente ter substituído o dinheiro Nativo Americano.


Contas feitas por conchas da lesma Nassarius kraussianus do tamanho de uma ervilha, que viviam num estuário próximo. Blombos Cave, África do Sul, 75,000 A.P.[B04]


No final dos anos 90, o arqueólogo Stanley Ambrose descobriu, em um abrigo de pedra no Vale Rift do Quênia, um cachê contendo contas feitas de casca de ovo de avestruz, lacunas vazias, e fragmentos de conchas. Elas são datadas usando a relação argônio-argônio (40Ar/39Ar) de pelo menos 40.000 anos de idade[A98].


Dentes furados de animais foram encontrados na Espanha também datando desse período.[W95] Conchas perfuradas também tem sido recuperadas de sítios do início do Paleolítico no Líbano[G95]. Recentemente, conchas comuns, preparadas em cordões de contas e ainda mais antigas, de 75.000 AP, foram encontradas em Blombos Cave, na África do Sul.[B04]


Contas de ovos de Avestruz, Rift Valley - Quênia, 40,000 A.P. (Cortesia Stanley Ambrose).


Nossas subespécies modernas haviam imigrado para a Europa e colares de conchas e dentes apareceram lá, de 40.000 A.P. em diante. Pingentes de conchas e dentes apareceram na Austrália de 30.000 A.P em diante[M93]. Em todos os casos, o trabalho é altamente habilidoso, indicando uma prática que provavelmente data de muito mais tempo atrás.


A origem de colecionar e decorar é muito possivelmente da África, a pátria originária de todas as subespécies anatomicamente modernas. Colecionar e fazer colares deve ter tido um importante benefício de seleção, uma vez que era custoso – a manufatura dessas conchas exigia tanto habilidade quanto tempo durante uma era em que os humanos viviam constantemente à beira da fome[C94].


Praticamente todas culturas humanas, até aquelas que não se envolvem em nenhum comércio substancial ou que usam formas mais modernas de dinheiro, fazem e apreciam joias, e valorizam certos objetos mais por suas qualidades herdadas ou artísticas do que por sua utilidade.


Nós humanos colecionamos colares de conchas e outros tipo de jóias – por bel prazer. Para os psicólogos evolucionistas uma explicação que humanos pelo “bel prazer” é, de fato, explicação nenhuma – mas o posicionamento de um problema. Por que tantas pessoas acham a coleção e o uso de jóias agradável? Para o psicólogo evolucionista, a questão se torna – o que causou esse prazer à evolução?


Detalhes de colar de um sepultamento em Sungir, Rússia, 28.000 AP. Contas interligadas e intercambiáveis. Cada conta de marfim de Mamute pode ter exigido uma ou duas horas de trabalho para manufaturar.[W97]



Evolução, Cooperação, e Colecionáveis

A psicologia evolucionista começa com uma descoberta matemática chave de John Maynard Smith[D89]. Usando modelos de populações de genes coevolutivos, de uma área bem desenvolvida da genética populacional, Smith postulou genes que podem codificar para estratégias, boas ou más, usadas em problemas estratégicos simples (os “jogos” da teoria dos jogos).


Smith provou que esses genes, competindo para se propagarem para as gerações futuras, desenvolverão estratégias que estão no Equilíbrio de Nash para os problemas estratégicos apresentados pela competição. Esses jogos incluem o dilema do prisioneiro, um problema prototípico de cooperação, e hawk/dove, um problema prototípico de agressão e sua mitigação.


É crítico para a teoria de Smith que esses jogos estratégicos, enquanto esgotados entre fenótipos aproximados, são de fato jogos entres genes no último nível – o nível de competição a ser propagada. Os genes – não necessariamente os indivíduos – influenciam o comportamento como se fossem limitadamente racionais (codificando para estratégias tão ótimas quanto possíveis, dentro dos limites do que os fenótipos podem expressar dadas as matérias-primas e história evolutiva anterior) e “egoístas” (para usar a metáfora de Richard Dawkins).


Influências genéticas no comportamento são adaptações para os problemas sociais apresentado pelos genes competindo através de seus fenótipos. Smith chamou esses Equilíbrios de Nash evoluídos de estratégias evolucionárias estáveis.


Os “epiciclos” construídos sobre a teoria da seleção individual anterior, como seleção sexual e seleção de parentesco, desaparecem dentro desse modelo mais genérico em que, de uma maneira Copérnica, coloca os genes ao invés dos indivíduos no centro da teoria. Por isso, a metafórica e geralmente incompreendida expressão de Dawkins, “gene egoísta”, para descrever a teoria de Smith.


Poucas outras espécies cooperaram como os humanos Paleolíticos. Em alguns casos – como cuidado das crias, as colônias de formigas, cupins, e abelhas, e assim por diante, cooperam porque são parentes – porque podem ajudar cópias dos seus “genes egoístas” encontrados nos seus semelhantes.


Em alguns casos altamente restritos, existe também cooperação entre não-semelhantes, o que os psicólogos evolucionistas chamam de altruísmo recíproco. Como descreve Dawkins[D89], a menos que uma troca de favores seja simultânea (algumas vezes até assim), uma parte ou outra pode trapacear. E geralmente o fazem. Esse é o resultado típico de um jogo que os teóricos chamam de O Dilema do Prisioneiro – se ambas partes cooperarem, as duas se saem melhores, porém se uma trapaceia, ela ganha às expensas do otário.


Em uma população de trapaceiros e otários, os trapaceiros sempre ganham. No entanto, algumas vezes os animais passam a cooperar através de interações repetidas e uma estratégia chamada Tit-for-Tat (‘olho-por-olho’, ‘na mesma moeda’): comece cooperando e permaneça cooperando até que a outra parte trapaceie – daí abandone. Essa ameaça de retaliação motiva a cooperação continuada.


As situações onde tal cooperação de fato ocorre no mundo animal são altamente restritas. A limitação principal é que tal cooperação é restrita a relacionamentos onde pelo menos um dos participantes é mais ou menos forçado a estar nas proximidades do outro. O caso mais comum é quando parasitas, e hospedeiros cujos corpos eles compartilham, evoluem para simbiontes.


Se os interesses dos parasita e do hospedeiro coincidem, de forma que os dois trabalhando conjuntamente seriam mais aptos do que sozinhos, (por exemplo o parasita está também fornecendo algum benefício ao hospedeiro), então, se eles conseguem jogar um jogo bem sucedido de Tit-for-Tat, eles evoluirão em simbiose – um estado onde seus interesses, e especialmente os mecanismos de saída dos genes de uma geração para a próxima, coincidem.


Eles se tornam como um organismo só. Todavia, há muito mais do que cooperação acontecendo aqui – há também exploração. Elas ocorrem simultaneamente. A situação é análoga a uma instituição que os humanos teriam desenvolvido – o tributo – que analisaremos abaixo.


Alguns casos muito especiais ocorrem sem envolver parasitas e hospedeiros compartilhando o mesmo corpo e evoluindo em simbiose. Em vez disso, eles envolvem animais sem parentesco e território altamente limitado. Um exemplo proeminente que Dawkins descreve são os peixe-limpadores. Esses peixes nadam dentro e fora das bocas de seus hospedeiros, se alimentando das bactérias ali, beneficiando o peixe hospedeiro.


O peixe hospedeiro poderia trapacear – ele poderia esperar o peixe-limpador terminar seu trabalho, e então comê-lo. Mas eles não o fazem. Uma vez que ambos são móveis, eles são ambos potencialmente livres para sair da relação. Porém, o peixe-limpador desenvolveu um senso muito forte de territorialidade individual, e têm listras e danças que são difíceis de imitar – como um logotipo de marca difícil de forjar.


Então o peixe hospedeiro sabe onde ir para ser limpo – e sabem que se trapacearem, eles terão de começar de novo com um peixe-limpador novo e desconfiado. Os custos de entrada, e deste modo também os custos de saída, de uma relação são altos, de maneira que funciona sem trapaça. Ademais, os peixes-limpadores são bem pequenos, então os benefícios de os comer não são grandes comparados a um número pequeno ou até uma única limpeza.


Um dos exemplos mais pertinentes é o morcego-vampiro. Como o nome sugere, são animais que sugam o sangue de presas mamíferas. O interessante é que, em uma noite boa, eles trazem um excedente; em uma noite ruim, nada. Seus negócios sombrios são altamente imprevisíveis. Como resultado, os morcegos sortudos (ou habilidosos) frequentemente compartilham sangue com os morcegos menos sortudos (ou habilidosos) em sua caverna. Eles vomitam o sangue e o grato beneficiário come.


A vasta maioria desses beneficiários são familiares. De 110 dessas regurgitações testemunhadas pelo biólogo de estômago forte G.S. Wilkinson, 77 eram casos de mães alimentando suas crianças, e a maioria dos outros casos também envolviam parentesco genético. Havia, porém, um pequeno número que não poderia ser explicado por altruísmo familiar.


Para demonstrar que esses eram casos de altruísmo recíproco, Wilkinson combinou as populações de morcegos de dois grupos diferentes. Os morcegos, com raras exceções, alimentavam somente amigos antigos do grupo original[D89]. Tal cooperação requer a construção de uma relação de longo prazo, ondes os parceiros interagem frequentemente, reconhecem um ao outro, e acompanham o comportamento uns dos outros. A caverna de morcegos ajuda a restringi-los a uma relação de longo prazo onde tais ligações podem se formar.


Veremos que alguns humanos também escolheram presas arriscadas e descontínuas, e compartilharam o excedente resultante com não-familiares. Na verdade, eles realizaram isso em uma extensão muito maior do que o morcego vampiro. Como eles o fazem, é o assunto principal de nosso artigo.


Dawkins sugere, “dinheiro é um token formal de altruísmo recíproco atrasado”, mas não persegue essa ideia fascinante mais além. Nós iremos.


Dentre pequenos grupos de humanos, a reputação pública pode tomar o lugar da retaliação por um único indivíduo para motivar a cooperação na reciprocidade atrasada. No entanto, crenças de reputação podem sofrer de dois tipos principais de erros – erros sobre qual pessoa fez o que, e erros na avaliação dos valores ou danos causados por aquele ato.


A necessidade de lembrar rostos e favores é um enorme obstáculo cognitivo, mas um que a maioria dos humanos considera relativamente fácil de superar. Reconhecer rostos é fácil, mas lembrar quando um favor ocorreu pode ser mais difícil. Lembrar dos detalhes a respeito de um favor que concedeu certo valor ao favorecido é mais difícil ainda. Evitar disputas e desentendimentos pode ser improvável ou proibitivamente difícil.


O problema de reconhecimento ou medida de valor é bastante amplo. Para humanos ele aparece em qualquer sistema de troca – reciprocidade de favores, escambo, dinheiro, crédito, emprego, ou compra em um mercado. É importante na extorsão, taxação, tributação, e na fixação de sanções judiciais. É importante até no altruísmo recíproco nos animais.


Consideres macacos trocando favores – vamos dizer pedaços de fruta por coçadas nas costas. A catação mútua pode remover carrapatos e pulgas que um indivíduo não consegue ver ou alcançar. Mas quanta catação versus quantos pedaços de fruta constituem uma reciprocidade que as duas partes considerem “justa”, ou em outras palavras uma não deserção? Vinte minutos de coçar as costas valem um pedaço de fruta ou dois? E quão grande o pedaço?


Até o simples caso de trocar sangue por sangue é mais complicado do que parece. Como os morcegos estimam o valor do sangue que eles recebem? Estimam o valor por peso, por carga, por gosto, pela habilidade de saciar a fome, ou outras variáveis? Da mesma forma, complicações de medição surgem até na simples troca de “você coça minhas costas e eu coço as suas”.


Para a vasta maioria das trocas em potencial, o problema de medição é intratável para animais. Ainda mais do que o problema mais fácil de lembrar rostos e os atribuir a favores, a habilidade das duas partes de concordar com precisão suficiente numa estimativa de valor de um favor é, primeiramente, a principal barreira ao altruísmo recíproco entre animais.


Apenas o kit de ferramentas de pedras de um homem do início do Paleolítico que tenha sobrevivido para encontrarmos, era de algum modo muito complicado, até para os cérebros do tamanho do nosso. Acompanhar os favores envolvendo eles – quem produzia qual qualidade de ferramenta para quem, e por consequência quem devia quem, e assim por diante – teria sido difícil demais fora dos limites do clã.


Adicionado a isso, provavelmente, uma grande variedade de objetos orgânicos, serviços efêmeros (como a catação), e assim por diante que não sobreviveram. Depois de mesmo uma pequena fração desses bens terem sido transferidos e serviços performados, nosso cérebro, tão inflados quanto sejam, não conseguiria acompanhar quem deve o que pra quem.


Hoje, frequentemente escrevemos essas coisas – mas o homem Paleolítico não tinha a escrita. Se ocorreu cooperação entre clãs e até tribos, como o registro arqueológico indica que de fato ocorreu, o problema se torna muito pior, uma vez que tribos caçadoras-coletoras eram geralmente antagônicas e mutuamente desconfiadas.


Se conchas podem ser dinheiro, pele pode ser dinheiro, ouro pode ser dinheiro e assim por diante – se dinheiro não é somente moedas ou notas emitidas por um governo sob a legislação aplicável, mas ao invés disso pode ser uma variedade de objetos – então o que afinal de contas é o dinheiro? E por que os humanos, frequentemente vivendo à beira da fome, gastam tanto tempo fazendo e apreciando esses colares quando poderiam estar coletando e caçando mais?


O economista do século 19, Carl Menger[M1892], descreveu inicialmente como o dinheiro evolui natural e inevitavelmente de um volume suficiente de troca(escambo) de commodities. Em termos da economia moderna a história é similar à de Menger.


Escambo requer uma coincidência de interesses. Alice produz nozes e quer algumas maçãs; Bob produz maçãs e quer algumas nozes. Acontece de seus pomares estarem próximos , e Alice confia em Bob o suficiente para esperar o tempo entre a colheita de nozes e a de maçã.


Assumindo que todas essas condições sejam atendidas, o escambo funciona muito bem. Mas se Alice estivesse produzindo laranjas, mesmo se Bob quisesse laranjas bem como nozes, eles estariam sem sorte – laranjas e nozes não crescem bem no mesmo clima. Se Alice e Bob não confiassem um no outro, e não pudessem encontrar uma terceira parte para ser intermediário[L94] ou fazer um cumprir um contrato, eles também estariam sem sorte.


Outras complicações podem surgir. Alice e Bob não podem articular completamente uma promessa de venda futura de nozes ou maçãs, porque entre outras possibilidades, Alice poderia ficar com as melhores nozes para si mesma (e Bob com as melhores maçãs), dando ao outro as escórias.


Comparando as qualidades assim como as quantidades de dois tipos diferentes de bens é ainda mais difícil quando o estado de um dos bens é apenas uma memória. Além disso, nenhum dos dois pode antecipar eventos como uma colheita ruim. Essas complicações aumentam o problema de Alice e Bob decidirem enquanto separados, se o altruísmo recíproco tem sido realmente recíproco.


Esses tipos de complicações aumentam conforme quão maior o intervalo de tempo e quanta incerteza entre a transação original e a recíproca. Um problema relacionado é que, como diriam os engenheiros, escambo “não é escalável”. Escambo funciona bem em poucos volumes mas se torna cada vez mais caro em grandes volumes, até que se torna caro demais para valer a pena.


Se existem n bens e serviços para troca, um mercado de escambo requer n2 preços. Cinco produtos requerem vinte e cinco preços, o que não seria tão ruim, mas 500 produtos requerem 250.000 preços, que vai muito além do que é prático pra um pessoa acompanhar. Com dinheiro, só existem n preços – 500 produtos, 500 preços.


O dinheiro, com esse propósito, pode trabalhar tanto como um meio de troca ou simplesmente como um padrão de valor – contanto que o número de preços em dinheiro não cresça demais pra memorizar ou mude com muita frequência. (O último problema, juntamente com um “contrato” de seguro implícito, juntamente com a falta de um mercado competitivo podem explicar porque os preços eram geralmente determinados por um costume evoluído de longo tempo e não por negociação aproximada).


O escambo requer, em outras palavras, coincidências de demandas ou habilidades, preferências, tempo, e baixo custo de transferência. Seus custos aumentam muito mais rapidamente do que o crescimento no número de bens trocados. O escambo certamente funciona muito melhor do que nenhuma troca em absoluto, e tem sido amplamente praticado. Mas é bastante limitado comparado a trocar com dinheiro.


O dinheiro primitivo existia muito antes das redes de comércio de grande escala. O dinheiro teve um uso ainda anterior e muito mais importante. O dinheiro melhorou muito o funcionamento. A coincidência simultânea de preferências era muito mais rara do que a coincidência através de longos períodos de tempo.


Com dinheiro Alice poderia coletar para Bob durante o amadurecimento dos mirtilos este mês, e Bob caçar para Alice durante a migração dos rebanhos de mamute seis meses depois, sem precisar ter que recordar quem deve o quê para quem, ou confiar na honestidade ou memória do outro.


O investimento de uma mãe na educação infantil poderia ser assegurado por presentes de valores