Os cripto-contêineres submersos nas sombras de uma floresta



Nos cinzentos campos de grãos cultivados dos gélidos planaltos do sul, onde a garoa fria e as neblinas cortaram meus pensamentos, encontrei um agricultor com rigs dentro containers submersos nas sombras de uma floresta recém plantada.

Naquelas longínquas terras rurais, ele me disse ''Eu sou um ex profissional de TI e atualmente sou agricultor e minerador. Sou um homem que voltou a ser livre.''


As palavras tinham a eletricidade do ar pós-tempestade: a potência calma e fresca de um instante em que tudo que não era necessário foi lavado, derrubado e dado adeus. Só restava a realidade fresca e concreta naquela voz tão cheia de si, integra em toda as suas potências.


Aquela liberdade havia começado desabrochar anos atrás - se podemos traçar a genealogia dela -, quando ele conheceu as criptomoedas. E como a maioria de nós, foi arrebatado por uma urgência. Em poucos dias, ele comprou sua primeira rig e em poucos meses, estava dividindo sua vida com elas: um apartamento, várias máquinas barulhentas, baixa umidade e o calor insuportável de um sonho necessário.


Depois de alguns anos nessa insana insalubridade, chegou o momento da emancipação. A transposição de água do rio e a modernização da rede de energia com fibra ótica deixou a propriedade rural do seu pai preparada para recebê-lo como um agricultor de grãos, rendimentos e criptomoedas. Como um homem livre nos campos do sul.


Quando eu cheguei na terra, observei aqueles containers e aquela floresta, e ali, em pé na minha frente, à luz dos primeiros raios de sol que rasgavam a geado, vi teu pai, meio camponês e meio herói, trabalhando na colheita perto do rio. Tão orgulhoso e em harmonia com o ambiente. E eu não pude deixar de ver nele, cada pai e cada avô que dedicado aos campos e aos filhos, construíram algo tão inacreditável como um sonho - a realidade.


A imagem dele me fez pensar nas gerações passadas que plantaram seu futuro e viram toda escória política destruírem tudo. Se ela só tivesse feito merda, ainda assim teria sido menos pior, servirá de adubo. Mas não, ela se esforçou para deixar tudo infértil, contaminado e impróprio.


Mas agora, a carne daquela carne e toda nova geração com suas ilusões digitais e máquinas barulhentas e calorentas estavam produzindo ilusões digitais capazes de dar um novo significado à terra que sucumbia. Uma cripto-floresta e um campo capaz de produzir uma nova possibilidade.


No ruído dos exaustores das máquinas minerando e no silêncio da liberdade que só se ouve no campo, na penumbra da floresta e nos raios que penetram cada pequena fresta da floresta, eu compartilhei com esse pai as preocupações e o amor por aquela terra, pelos grãos, pelo filho e pelo futuro.


No final do dia, eu havia esquecido quem eram eles - que na verdade ninguém sabe quem são, e que assim deve(ria) ser, mas que eu quis saber - e dormi e sonhei e me encontrei com cada pai e me encontrei com o que aconteceria se eu tivesse seguido na direção que eu (ainda) não segui. E de mãos dadas com Morfeu, me encontrei com as possibilidades todas desse caminho.


Na manhã seguinte, meio boêmio, geek e agricultor, ele me despertou e eu percebi que não existe mistério ou dúvidas. Só um campo de cultiváveis pronto pra irresistível liberdade.


E eu fiquei pirando com a tensa ansiedade de um desejo impróprio de querer viver. Cada suspiro, sorriso e cada história me partiu em várias e me deixou imensa & imersa na minha compreensão de tudo que eu já soube e tudo que já fui e devo ser. E tudo foi integrado naquele conceito, naquele container submerso em sombras, em árvores e em possibilidades.


Na hora de ir embora, o agricultor parou e me disse:


''Ah, já ia esquecendo.... você vai ser uma mulher livre! Estou sentindo isso''.

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