Fiat, do latim “deixe (de) existir” ou porque investir em Bitcoin


A promiscuidade dos Bancos Centrais, erosão do dólar, o dinheiro como uma alucinação que pode ser reprogramada e o Bitcoin enquanto uma alternativa antifrágil.






It’s financially irresponsible to not have some money invested in the crypto space.

Tim Enneking


O desejo é um sentimento difícil de controlar, mas que tem grande facilmente de tirar as pessoas do controle. Quanto mais nos entregamos, mais difícil fica de enxergar as linhas que não poderiam ser ultrapassadas. Esse aprendizado juvenil parece ter passado despercebido pelos Bancos Centrais que se entregaram sem qualquer pudor à tentação de fabricar um rio infinito de dinheiro para as economias.


A expansão da base monetária tem sido historicamente uma amante irresistível. E se tornou um fenômeno contagiante que ganhou impulso com a expansão do coronavírus. Bancos Centrais no mundo todo se entregaram ao desatino da fabricação de dinheiro para resolver problemas escancarados, como se as regras do jogo não fossem válidas.


No calor da balbúrdia, injeções de liquidez de US$ 1.5 trilhão foram feitas por bêbados que não se importam em limpar a sujeira feita. O Fed expandiu os programas de compra de título da crise financeira de 2008 e governos no mundo inteiro adotaram juros zero.


Mas, assim como grandes balbúrdias geram ressacas histórica, fabricar dinheiro desmedidamente tem consequências catastróficas. A retomada da economia em ''V'' e 'U'' parece um grande ''L'' aaadeiraa baixo. Mas a verdade é que esse processo já vem acontecendo há algum tempo. A inflação acumulada de 1994 até hoje é de mais de 400%. Ou seja, uma nota de R$ 100 já perdeu mais de 80% do seu poder de compra desde o dia em que passou a circular. Mas parece ficar cada vez mais difícil colocar a sujeira embaixo do tapete.


Fiat, do latim deixe existir


Se a TINA é a única esperança do dólar, cuidado.

Stephen Roach, ex-presidente do Morgan Stanley na Ásia


O estudo da etimologia das palavras é uma ótima ferramenta para entender o mundo. Talvez, muitos tenham dificuldade de entender que o dinheiro é uma construção que só existe enquanto se confia em sua existência. Fiat significa aquilo que existe por decreto, por uma ordem autoritária. Enquanto fiducia significa aquilo que requer confiança. No século XIII, em viagem ao império de Kublai Khan, Marco Polo ilustra muito bem essas características.


''A cunhagem deste papel-moeda é autenticada com tanta forma e cerimônia como se fosse de ouro ou prata puro. Para cada nota, vários oficiais, especialmente nomeados, não apenas subscrevem seus nomes, mas também afixam seus selos.[...] Desta forma, recebe autenticidade total como dinheiro atual, e o ato de falsificar é punido como uma ofensa capital. Quando assim cunhado em grandes quantidades, esta moeda em papel circula em todas as partes dos domínios do Grande Khan; nem se atreve, a qualquer pessoa, no perigo de sua vida, recusar-se a aceitá-la em pagamento.'' The Travels of Marco Polo - Chapter 24


As moedas fiduciárias são exatamente isso, coisas que existem porque um governo assim disse que seria e cuja ordem é acatada porque as pessoas confiam/temem decretos. Mas quando a fiducia rui, o fiat não pode mais existir.


Desde o fim do padrão-ouro, o dólar tem tido o privilégio de ser a moeda de reserva do mundo. Mas sua dominância tem enfrentado cada vez mais ameaças. Quando somamos as desvantagens de outras economias frente à moeda, que ficam a mercê de sanções e privilégio e o crescimento do déficit na economia doméstica dos Estado Unidos, começamos a ver os urubus se aproximando.


Os poucos sensíveis aos presságios costumam ter um apego infantil à TINA (There Is No Alternative), a ideia de que o dólar precisa sobreviver, porque ele é a referência mundial dos negócios. E por isso, incorrem no que Nassim Taleb chama de ''problema do peru'', a confusão entre a ausência de evidências com a evidência de ausência que faz com que façamos projeções futuras rigorosas com base no passo, sem considerar eventos raros, extremos e incalculáveis.


Esse apego pode inclusive ter aumento pelo desempenho do dólar perante a crise, já que ele normalmente é visto como refúgio durante crises. Mas, o dólar pode estar passando pelo seu período de engorda antes do momento fatal, exatamente da mesma forma que ocorre com o peru.


Dinheiro como uma ilusão coletiva que pode ser reprogramada


Aos apegados, talvez um pouco de antropologia ajude. No ano de 1635, o governador da Nova Amsterdã (atual Nova York) pegou um grande empréstimo de um banco Anglo-Americano em wampum -espécies de conchas do molusco que eram usadas como dinheiro por nativos norte americanos-. Então, entre 1637 e 1661, o wampum se tornou a moeda legal na Nova Inglaterra e em 1710 se tornou moeda legal brevemente na Carolina do Norte. O wampum continuou sendo usado até o século 20, mas foi substituído por moedas do reino - cunhadas e marcadas pela Coroa.



fonte: paradigma.education


O exemplo funciona como abstração mental para lembrar a todos nós que as trocas econômicas e o dinheiro são construções sociais, culturalmente desenhadas e historicamente flexíveis. E por isso, podem ser reprogramadas. Já passamos por conchas, sal, animais, metais e papeis. Porque o dólar seria imortal?


Então permita-se imaginar. Pense no dinheiro como uma ilusão coletiva. Quais características essa abstração deve ter?


  • Para responder ao Zeitgeist: digital

  • Para amparar a globalização e a troca entre diferentes culturas: zero fronteira e 24/7.

  • Para que nenhum país/cultura tenha vantagem um sobre o outro: auto-soberano

  • Para responder à promiscuidade dos Bancos Centrais: uma fidelidade aos ideais deflacionários.

  • Para garantir a liberdade e privacidade frente à censura: suportar anonimidade.


Voilà !


Bitcoin, do popular, ninguém manda em ninguém.

O Bitcoin enquanto tecnologia supera as capacidades das opções fiduciárias de hoje, permitindo transações internacionais 24/7 por exemplo. Mas especialmente agora, durante a crise do coronavírus, o Bitcoin é uma alternativa à catástrofe do sistema financeiro. O Bitcoin é capaz de fazer o fiat deixar (de) existir enquanto tecnologia econômica e é uma ótima ferramenta cognitiva para que as pessoas vejam que outro sistema é possível.


Para todos os habitantes de países com economias devastadas com dívidas monstruosas, países predatórios e mega vigilantes ou simplesmente para aqueles que não querem ver o valor de seus trabalhos serem desvalorizados, o Bitcoin é uma abstração que vale a pena ser experimentada.


E ele se torna mais valioso na medida em que a confiança dos Estados Nações são implodidas. Ele é antifrágil por natureza. Ele se beneficia da volatilidade, do caos e do incerto. O número de pessoas que confiam mais no Bitcoin do que em grandes bancos só tem aumentado. Os millennials estão liderando a adoção do Bitcoin. Mais de 47% dos entrevistados pelo survey da The Tokenist dizem confiar mais no Bitcoin do que nos Bancos, com um crescimento da confiança de 29% nos últimos três anos.


Alucinações induzidas são excelentes para quebrar paradigmas e oferecer novas visões ou para te proporcionar uma fu**** bad trip. Então, apesar dessa confiança, a velha regra de saber onde está amarrando o seu burro serve aqui.


Na maior parte do tempo, o Bitcoin se mostrou um ativo excelente para seus devotos. Para ser mais exata, na última década, até o momento de escrita deste artigo (junho/2020), o Bitcoin foi um ''investimento ruim'' em apenas 90 dias (0.39% do tempo de existência dele). E pelos motivos citados acima, se você não alfassar ou esperar muito para comprar, esses 90 dias logo terão sido também bons momentos.


Mas, infelizmente, muitas pessoas entraram nesse barco nesse 0.3% do tempo. Isso ocorre muito devido à burrice da mídia que divulga o ativo quando ele está sobrecomprado. E quando ele passa por mais uma de suas morte e todo mundo deveria ir dar um oi para o capeta, o silêncio reina.


Uma boa dica é conhecer algumas das métricas que são usadas para ver se é ou não uma boa hora para embarcar na trip Bitcoin.


''Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis".
George Box