O que Peixes, Whisky e a Mineração do Bitcoin têm em comum?



Uma das questões recentes mais interessantes nas criptomoedas é sobre o uso de energia do Bitcoin. Afinal, o Bitcoin é um perigo para o meio ambiente?


Antes de tentar responder essa questão, uma regressão.


Como saber? Qual o caminho neutral através do qual precisamos passar para descobrir uma resposta?


René Descartes foi um filósofo e matemático francês e uma das figuras-chave da Revolução científica, conhecido principalmente por suas ideias revolucionárias sobre o racionalismo da Idade Moderna.


Uma das grandes contribuições de Descartes à ciência é a inauguração de uma nova visão mecanicista da natureza, conhecida pela metáfora do relógio: “o corpo, considerado com um relógio que necessita de um motor que possibilita todas as funções fisiológicas”.


Descartes, no Discurso sobre o método, promove a união entre as artes mecânicas e a filosofia, estabelecendo um novo método científico, cujo cerne baseia-se na união de evidências, decomposição das partes em 'unidades' mais simples a fim de organizar e ordenar os dados de forma a compreender o objeto para realizar posteriormente uma síntese e enumeração das premissas.


Para o filósofo, podemos compreender fragmentando a coisa, dividindo-a em partes e entendendo uma-a-uma, para depois entender o todo.


Para Gregory Bateson, um antropólogo e semiólogo inglês focado no desenvolvimento de teorias sistêmicas e na cibernética, para conhecer algo, precisamos expandi-lo. Durante a década de 1940, Bateson trabalhou no desenvolvimento de uma "meta-ciência" da epistemologia. Em Mente e Natureza, Bateson diz que sem contexto, nada significa. É o contexto que define o significado de algo e não suas partes. O que ele chama de ''teoria do contexto temporal'' define que o quer que seja, deve ser conhecido com base em suas relações.

Uma meta-teoria para a questão energética do Bitcoin

Se utilizarmos o método de Descartes, ''decompondo'' a questão da mineração do Bitcoin em partes, chegaremos a algumas informações importantes, algumas delas que não são tão óbvias:

-Modelos imprecisos: Há diversas metodologias para estimar o consumo de energia do Bitcoin, mas as variáveis da atividade (dificuldade ajustável, hardware de mineração usado, evolução da eficiência das máquinas, locais de mineração, fonte de energia, resfriamento, etc) tornam as estimativas complexas. Devido a tais variáveis, os dois modelos de referência no mercado (BECI e CBECI) indicam números que vão de 53 TWh à 516 TWh, com uma estimativa média de 110 - 150 TWh por ano. Se é difícil estimar a quantidade de energia utilizada na mineração, imaginem as dificuldades encontradas quanto queremos estimar a pegada de carbono.

-O gasto energético é necessário: O gasto computacional/energia/trabalho da rede tem como objetivo proteger o Bitcoin e impedir que agentes mal intencionados fraudem o sistema e modifiquem o histórico das transações. Em outras palavras, o Bitcoin só pode ser imutável e seguro se e somente se, for caro (em valor ou energia) fraudar a rede. O custo de energia do PoW é o custo de manter a rede segura de forma descentralizada.

-Bitcoin consome energia que seria desperdiçada, mas nem sempre: o Bitcoin busca energia abundante, o que normalmente coincide com lugares com excedente e desperdício, o ativo usa energia que seria desperdiçada. Historicamente, a mineração foi estabelecida na China, em províncias distantes dos centros urbanos, com grande excedente energético e baixa densidade populacional, mas com grande dependência de energia hidrelétrica. Em momentos de seca da região, o Bitcoin consumia energia suja.

-O Bitcoin escala por camadas: Bitcoin escala como uma cebola e não como um prédio, 350 mil transações diárias na rede não significa que apenas 350 mil transações foram liquidadas utilizando a infraestrutura/segurança da rede (vide: soluções de segunda camada (Lightning), sidechains como Liquid e Rootstock e plataformas de contratos inteligentes). Considerar custo energético por transação não é correto.

A Ecologia do Bitcoin

Uma outra forma de pensar se o Bitcoin faz mal pro meio ambiente ou não, é pensando nas relações do ativo. Imaginem o diálogo entre o filósofo e o antropólogo:

Descartes: Durante a mineração, há uma grande produção (indesejada) de calor que requer investimento em ventilação e infraestrutura de resfriamento para garantir o bom funcionamento da operação. Esse calor é normalmente desperdiçado e aumento ainda mais o gasto energético do Bitcoin.

Bateson: Mas não precisa ser assim. Inúmeras empresas e pessoas estão aproveitando esse calor para se manterem aquecidas dentro de casa no inverno, para cultivar culturas agrícolas, manter peixes aquecidos, para ferver água, destilar flocos de sal e produzir Whisky.

Descartes: Para o Bitcoin funcionar, ele requer muita energia e quanto mais ele cresce, mas energia requer. O crescimento da criptomoeda é um risco para o meio ambiente.

Bateson: Na semana passada, o Virunga National Park - um território de conservação ambiental e santuário de gorillas que é alvo dos caçadores ilegais, resolveu instalar contêineres com máquinas de mineração para salvar os primatas. Todo lucro da atividade será usado para manter o parque funcionando.

Ao mesmo tempo, a charitywater.org anunciou o Bitcoin Water Trust, um fundo de Bitcoin focado em projetos para levar água às populações sem acesso. A organização sem fins lucrativos atua em 29 países, já financiou mais de 64 mil projetos e levou água potável a mais de 12 milhões de pessoas. A organização se comprometeu em não liquidar os Bitcoins até 2025 e em realizar a execução dos projetos de água diretamente no criptoativo.


O Bitcoin pode ter tudo a ver com degradação ambiental e fontes sujas de energia ou ajudar na manutenção de parques de conservação e financiamento de parques de energia renovável.


''Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis".
George Box