Entrevista com os degens que nunca precisaram de um emprego de verdade

Como vive um degen? Quais suas estratégias e seu cotidiano? Para entender sobre esse estilo de vida, entrevistei dois nômades digitais que vivem de explorar protocolos, países e yields.



Ame-os ou Odeie-os, tanto faz. Mas conheça suas estratégias,

caso você queira experimentar o limite das finanças descentralizadas.


Degen: abreviação de 'degenerado', geralmente usado para jogadores com tendência a apostar grandes quantias de dinheiro. No setor cripto, degen refere-se a usuários que envolvem-se com negociações com riscos astronômicos por recompensas igualmente loucas. 


Histórias de Degens


No dia 28 de setembro de 2020, André Cronje, criador do Yearn.Finance, criou a conta Eminence.Finance e twittou uma imagem com a palavra “Spartans”. Em menos de 24 horas, US$ 15 milhões em criptomoedas chegaram ao projeto, que era um amontoado de contratos inteligentes não testados e sem UX/UI. No dia seguinte, uma falha no código resultou na drenagem dos US$ 15 milhões (US$ 8 milhões foram devolvidos a Cronje depois). As consequências para Cronje não foram duradouras. Pouco tempo depois, o Yearn.Finance atingiu ganhos astronômicos e até hoje continua no TOP 200 do coinmarketcap.


No dia 27 de agosto de 2021, Dom Hoffman, criador da Vine, twittou sobre seu gerador de itens aleatórios de aventura, que deveria ser usado por qualquer um, para criar itens de aventura como armas, peças de armadura e outros acessórios.





Em cinco dias, as sacolas do Loot foram avaliadas em US$ 180 milhões, o floor price foi para US$ 46.000 e as pessoas começaram a evoluir seus itens e criar guildas em torno dos itens. A ideia era criar um projeto coletivo de NFTs livres, em que diferentes pessoas e jogos poderiam usar os mesmos inputs para criar os universos que eles quisessem. Na prática, Hofmann criou uma forma para que as pessoas pagássem fortunas à rede Ethereum para ela retornar uma lista de nomes aleatórios.


Cronje e Hoffman vivem em meio a oportunidades incríveis, golpes, memes, protocolos e as ideias que compõem o habitat natural dos degenerados, as finanças descentralizadas (DeFi).









No mercado DeFi você pode obter um empréstimo mais rápido do que em qualquer banco, você pode fornecer um empréstimo e cobrar juros muito além da taxa tradicional do mercado. Pode testar a composibilidade maluca dos smart contracts no d0. E isso está disponível para pessoas que geralmente não se qualificam nem para serviços bancários nem com juros normais, quem dirá com juros altos.


Apesar das controvérsias e do viés pejorativo comumente associado aos degens, acredito que são eles que impulsionam as finanças descentralizadas (DeFi), que forçam os limites dos mercados cripto e financiam a inovação ao negociar novos tokens, protocolos e plataformas com graus extremos de risco. Como já disse Darwin, o universo é um mutante de erros dos quais a vida apareceu. Sem as loucuras degens, o setor não teria chego aos US$ 3 trilhões de capitalização. É na festa dos degens onde os novos produtos financeiros capazes de recriar o sistema financeiro são criados, testados e evoluem.


Como anarquista ontológica, acredito que nenhuma inovação ou produto deveria ser restrito a ''investidores qualificados'' ou a qualquer qualificação, mas ao mesmo tempo, entendo a insustentável leveza de ser completamente responsável pelos meus atos e ativos.


E como só os realmente degenerados podem aproveitar todo potencial das criptomoedas. Hoje conto pra vocês a história de dois degenerados ontológicos com quem aprendo muito há alguns anos e que me inspiram na forma como vivem.


Entrevistando Degens


Apesar de conhecê-los há algum tempo, apenas recentemente percebi as similaridades entre esses degens - que não se conheciam. Ambos são nômades digitais viciados em jogos desde a infância, mergulhadores de águas profundas por hobby, desempregados por opção e degenerados por aptidão que vivem de explorar países, metaversos e protocolos. Ao perceber essas similaridades, fiquei super intrigada em saber mais sobre suas degenerações e fiz uma série de perguntas a eles. O resultado compartilho abaixo.


O primeiro degen, que chamaremos de Igor, é um estoico que me apresentou o biohacking há anos atrás, com tive muitas conversas sobre Taleb e que talvez tenha sido um dos primeiros nômades digitais que conheci (+ 40 países).


O segundo degen, o TryNinja, é um verdadeiro agente especializado nas artes das guerras DeFi, que faz mais do que jus ao pseudônimo do que vocês imaginam. Esse degen eu conheci mais recentemente no fórum Bitcointalk, o fórum criado por Satoshi Nakamoto.


Como se cria um Degen? A infância.


Rafa: Me conta um pouco da sua história? Como foi sua infância e adolescência? Quando você era criança, tinha uma profissão que queria ter?


Igor: Eu sempre fui nerd, focado e competitivo. E desde muito cedo jogava todos os jogos possíveis. Iniciei com Magic com 5-6 anos e gastava todo dinheiro que eu tinha com jogos de tabuleiro. Com 10 fui ter meu primeiro computador e praticamente só joguei até os 17. O jogo que mais joguei foi Tíbia e fui um dos melhores do mundo na minha época. Desde essa época eu já era trader, eu deixava um personagem nas cidades só para comprar itens baratos e vender pelo preço do mercado, tinha uma coleção vasta de itens e sabia precificá-los. Fiz muito dinheiro no jogo. Em 1999, quando eu tinha 10 anos, cheguei a ter R$3.000 na conta e o salário mínimo era coisa de R$ 130,00.


Um pouco mais velho joguei muito League of Legend. Quando fui prestar o vestibular, eu pensei: agora preciso parar de jogar para entrar numa faculdade. Hoje eu não jogo mais porque sei que sou muito competitivo e isso me domina muito fácil. Mas eu nunca fui de querer ter uma profissão. A única coisa que eu gostava era de astros e astronautas. Tudo que eu via relacionado ao sistema solar eu achava bem massa, gostava de ler e me deixava fascinado. Até cogitei fazer física, mas acabei indo para economia, desde os 16 e 17 já comecei a ter interesse pela bolsa. Já operava com simuladores de bolsa.


Mas é engraçado porque uma das coisas que mais gostava de fazer em jogos era explorar os mapas, territórios, entrar nos lugares, ler os livros que tem dentro do jogo (no tibia tem muito isso), conhecer as narrativas, entender a essência das coisas. E hoje me pego gostando de explorar lugares e é até engraçado porque falamos muito de metaversos. Mas eu já tinha mais personalidade digital do que real. A galera fala de metaverso como uma coisa do futuro. Mas jogos são uma representação digital de você, já eram um metaverso, Me vejo inserido nesse cenário desde pequeno. Minha personalidade digital era mais forte que a real, o que é um indício real de um metaverso. Hoje eu evito jogar e tento viver mais.


TryNinja: Sempre gostei de jogos eletrônicos, e consequentemente, passei bastante tempo no computador. Aprendi a programar tentando criar o meu próprio servidor privado do jogo Habbo Hotel (um dos primeiros “multiversos”) e sites que interagiam com APIs e bancos de dados (sempre gostei dessa interatividade entre sistemas). Mockups de sistemas de busca da CIA” em Delphi e VB.NET, plugins para servidores de Minecraft, etc… sempre um novo desafio.


O jogo de FPS competitivo da Valve, Counter Strike: Global Offensive, acabou virando o meu jogo favorito. Meu sonho era ter aquelas skins (visuais das armas) caras, que custavam centenas de dólares. Curiosamente, podemos comparar elas com os NFTs de hoje em dia, já que cada uma tinha algumas características específicas (os ‘metadados’ das NFTs de hoje), como o seu float (a qualidade da arma) e se ela tinha adesivos.


A forma que encontrei de alimentar esse meu desejo caro foi através de sites de casino online que giravam em torno dessa economia do jogo. Em um deles, enquanto girava a roleta, consegui transformar uma única skin de R$ 20,00 em mais de R$ 6000 (já era degen desde cedo). Decidi ficar com metade e sacar o restante para usar no meu dia-a-dia. Como naquela idade eu não tinha nem conta no banco, a forma que achei de acessar esse dinheiro foi através de uma tecnologia que ainda estava engatinhando… o Bitcoin.



Rafa: Há algum acontecimento ou evento que acredita ter influenciado na sua escolha de vida degenerada?


Igor: Eu normalmente não deixo que eventos signifiquem muito, que sejam marcos. Tento levar as coisas de forma marginal. Mas a minha vontade de viajar surgiu quando um amigo me disse que viajava sozinho e eu nunca tinha saído do país. Aí eu falei, eu vou. Peguei duas semanas e fui fazer Argentina e Uruguai e aí voltei pro Brasil depois desse mochilão sozinho. Deu 4-5 meses, e eu pensei quer saber, é super difícil subir no meu trabalho e nem gosto de estar aqui. Aí comprei o voo mais barato que tinha pra europa e fui com passaporte italiano. Aí comecei a viajar. Ai eu tinha todo tempo do mundo, mas não todo dinheiro do mundo, então nessa trip eu tive que encontrar as formas de fazer tudo bem barato. Uns bicos aqui e ali. E isso me mudou muito porque comecei a conhecer novas culturas, novas pessoas, ver as formas de lidar com as coisas. Cada país e cada pessoa que você vai conversando vai abrindo um pouco sua cabeça. É extremamente rico conversar, principalmente com quem viaja muito. É um nicho muito específico de pessoas e você acaba trocando ideias profundas e conhecendo coisas novas e isso te faz querer viajar cada vez mais, lidar com os locais e ver como as coisas funcionam. Quem não viaja está sempre na mesma página do livro.


Qual a rotina de um Degen?


Rafa: Como é sua rotina? Como você começa e termina seu dia?


Igor: Não costumo ter muita rotina, depende do estágio que eu estou. Nos últimos meses, 80% do meu tempo é dedicado à leitura, twitter e pesquisa e 20% uso para operar cripto, cuidar dos meus robôs, das minhas operações com nodes, DeFi e para buscar novas oportunidades de tirar dinheiro do mercado.


Em momentos que eu to mais situado em algum lugar, com escritório e minhas telas, aí basicamente minha rotina é acordar e dormir no computador, com 2 horas pra treinar e comer, mas o resto é 400 mil abas abertas lendo, entrando e testando protocolo e botando dinheiro em mil coisas, sendo especialista em perder dinheiro devagarzinho, com gerenciamento de risco, que é o mais importante. Eu gosto de testar tudo. Tudo que sai novo em cripto eu gosto de ser um dos primeiros a perder dinheiro (risos).


Se você é do varejo você precisa ser rápido. Quem ganha dinheiro são os creators, VCs e influencers, pois estão no topo e vem antes de todos. Para ganhar dinheiro, você precisa ser rápido, então eu tento entrar rápido, testar e ver se tem oportunidade. Se tem, entro mais pesado na operação. Se não tem, eu perdi dinheiro, mas já testei, sei como funciona e se aparecer algo parecido já sei como funciona. Isso rolou com várias coisas, games, Launchpads, rebaseDAOs, etc


Sempre testei várias operações pra ver se dá pra entrar e escalar. Além dos robôs, nos últimos tempos passei anos lendo sobre trading quantitativo e algoritmos. Devo ter testado entre estratégias minhas e de terceiros, mais de 400 estratégias. E conversei com muita gente que desenvolve. Se quero aprender algo, vou descobrir, perguntar, ir atrás. Uma estratégia pode estar dando certo porém você não sabe se o desenvolvimento é bom, ai marco call, converso, pra ver se o que ele faz tem sentido ou se está dando sorte. Aí entramos na teoria da decisão, que é dos temas que mais tenho interesse e que Taleb sempre fala muito.


Como tomar boas decisões se o futuro é desconhecido? Como lidar com os viéses? Nesse assunto eu também preciso me entender como humano, como funciono. Quando o assunto é decisão, a única forma de melhorar e aprender para extrair o melhor das coisas é tomando decisões mais acertadas dia após dias. E tu não deve julgar pelo resultado, mas pela qualidade da decisão dada às informações que tu tinha no momento. Então sempre gostei de operar e fazer trade, mas demora pra desenvolver psicológico, entender que a tomada de decisão é mais importante que o resultado. A melhor forma de entender é indo aos poucos, buscando fazer as coisas sempre melhor.


Quando estou em rotina, minha rotina é acordar, treinar, correr logo cedo em jejum e passar o dia lendo e aprendendo várias coisas. Após vários dias assim, a panela de pressão vai criando muita pressão (risos) e preciso extravasar. O que funciona bem pra mim é ficar umas três semanas trabalhando muito e depois ficar umas duas semanas curtindo, ficar alternando entre trabalho e “férias”. Porque quando estamos muito focados no trabalho, começamos dar um narrow down na nossa visão, ficamos no microscópico, aprofundado e técnicos e não conseguimos ver o todo. Momentos de aprofundar é importante para encontrar os riscos e oportunidades, mas poder ter consciência e olhar a figura como um todo e entender o que está fazendo é complementar. Não é porque estou a duas semanas sem estar olhando pro trabalho que minha cabeça não está processando essas coisas. Eu não fico parado, sou hiperativo, preciso sempre estar produzindo e utilizando meu tempo, seja trabalhando, pensando, anotando ou curtindo e fazendo festa, partying hard. Work hard e play hard.


TryNinja: Nada muito especial. Eu acordo já acessando o BitcoinTalk e o Twitter (mais especificamente, o “crypto-twitter”) para ver o que está acontecendo no mundo crypto. Depois visito as farms DeFi onde tenho dinheiro (caso tenha), faço o harvest e já vendo os tokens de recompensa. A partir daí, depende de qual país eu esteja e do meu “mood” do dia. Posso sair para comer algo ou pedir comida em um aplicativo de delivery, posso ficar deitado assistindo Youtube ou começar a buscar novas oportunidades para ganhar dinheiro (geralmente via grupos de telegram ou pelo crypto-twitter). De noite eu caminho para gastar as minhas energias no STEPN, quase como a última coisa do dia.


Gastos e Estilo de Vida


Rafaela: Sobre estilo de vida, Naval cita muito a importância de não aumentar os custos do estilo de vida à medida que aumenta o rendimento. Acho que a vida de nômade ajuda um pouco nisso. Como é seu estilo de vida? Existe algum tipo de coisa que você não polpa e gasta sem se pensar?


Igor: Em relação a não poupar e gastar sem pensar, eu sou muito consciente em relação a gastos e sempre quanto estou gastando e como isso me afeta. Sou aficcionado em fazer conta desde criança. Todo número que encontro eu fico somando e multiplicando pra relativizar, é quase um tic meu. Então sempre sei quanto meu gasto representa proporcionalmente. Quando eu não tinha grana pra nada, tinha que ter uma boa noção do que estava fazendo. Agora que eu tenho mais conforto, já posso ter gastos que não preciso pensar tanto, mas continuo pensando. Uma das coisas que tenho na vida, é que não devo passar vontade de nada, em questão de lazer e de me dar oque eu mereço. Eu vou sair, vou curtir, vou beber, vou pagar um drink pra alguém, coisas que acho que são válidas. Vou ter os benefícios. Não esbanjo e gasto dinheiro atoa, mas priorizo meu bem estar. Me dou às coisas porque a vida é curta e precisa ser aproveitada. Dinheiro é o meio e não o fim, então eu uso o dinheiro para me alavancar em coisas que vão me fazer bem e vão me agradar.


Aqui na Tailândia eu faço massagem dia sim e dia não. A massagem aqui é relativamente barata.Então eu gasto porque me agregada, é um momento meu, um momento de relaxamento. Eu tenho uma cabeça bem perturbada, que não desliga em momento nenhum. É meio foda. Esses momentos de relaxamento são importantes para despressurizar, para que no próximo momento eu possa processar e analisar as coisas. É uma necessidade minha conseguir destravar e sair, se não a panela explode. Um momento de lazer é uma forma de me equilibrar e nisso eu não economizo e não penso. Gastar com lazer é algo que me vai me fazer mais produtivo porque amanhã vou estar bem e isso vai me ajudar a ter um resultado melhor. Vejo tudo de forma sistêmica e não separada. Eu tento cada dia conhecer um pouco melhor de mim, lidar da melhor forma possível para que eu possa extrair o melhor da vida e de tudo, fazendo o que eu quero, cuidando das pessoas, trocando idéias, sentindo emoções e aproveitando porque a vida é curta.


TryNinja: Eu concordo plenamente com ele! Ainda que em épocas onde tiro $2k por dia em alguma farm super degen (ou com o STEPN, recentemente), eu não consigo me ver aumentando os meus gastos com mais luxo desnecessário. Não me preocupo ao me hospedar em hostels com uma diária de $8 (enquanto faço amizades com pessoas de todos os lugares do mundo) ou comer algo barato ($3 por dia enquanto em Dahab, Egito).


Por outro lado, acho que um maior rendimento abre as portas para que eu possa ter algumas experiências que eu não gostaria de perder por nada, como um show do Hans Zimmer (meu compositor favorito) em Budapeste, ou um grande campeonato do meu jogo favorito (CS:GO) na Bélgica.




Mas não se engane, pois não sou de ferro e também me dou ao luxo algumas vezes, como um hotel mais caro (com uma banheira!) para relaxar por uma semaninha ou um tradicional Ryokan japonês (esse ainda está na bucket list).



Início nas criptomoedas


Rafaela: Como e quando você conheceu as criptomoedas? Lembra qual foi seu primeiro pensamento quando entrou em contato com o Bitcoin?


Igor: Eu conheci cripto na faculdade, lá em 2011/2012, e a galera falava e eu era bem cético, pensava: acho que não vai rolar, vai morrer e etc, mas eu nem parava pra olhar. Entrei em 2016/2017, quando eu estava operando e entrava muito nos fórum e comecei a olhar pro Bitcoin, comecei a estudar, entrei Ethereum e era fã boy de ETH, na época. Aí comecei a ler, até escrevi em um fórum sobre ''Disruption of Money'', fiquei em choque e comecei a comprar e neste momento não teve mais volta. Qualquer outro caminho não fazia mais sentido pra mim. Não teve como. Desde então, full time em cripto. Cripto é como estar apaixonado, você não escolhe, você é escolhido e aí tu entra e não tem o que fazer. É mais forte que você a vontade de estar no mercado. E de fato é um mercado muito volátil, então trás muita coisa átona, e faz com que nos conheçamos bastante também. Tem momentos de euforia, momentos de depressão.


Na época eu estava em Melbourne e lá tinha um centro de blockchain, que era um co-working e ir lá acelerou muito meu aprendizado porque tinha muito evento e muita reunião. Tinha uns maximalistas lá e comecei a entender a força do Bitcoin. Hoje tenho exposição a muita coisa, mas com o objetivo de aumentar saldo em BTC no longo prazo. Não me vejo com uma vantagem competitiva em outro mercado além desse e não consigo ver outra alocação superior a que eu tenho, então as quedas são esperadas e não me afetam mais como afetavam nos bear markets anteriores. Hoje o posicionamento é mais racional e de longo prazo, se o preço do BTC for abaixo de US$ 20K, já tenho compras esperando por lá.


TryNinja: Como dito anteriormente, conheci o Bitcoin quando precisei sacar os meus ganhos na roleta do CS:GO. A primeira coisa que pensei foi o quão incrível era a facilidade e falta de burocracia desse meio de pagamento. Eu rapidamente “gamifiquei” o Bitcoin ao começar a buscar formas de ganhar mais dele na internet, não só porque eu poderia transformá-lo em reais/dólares depois, mas porque eu gostava de abrir a minha carteira da Multibit e ver o número de satoshis crescendo.



Por que criptomoedas?


Por que escolheu se dedicar às criptomoedas/ operar no mercado financeiro ao invés de buscar um emprego estável?


TryNinja: Empregos estáveis geralmente não pagam tão bem, e aqueles que pagam melhor ainda exigem muito tempo e estudo em assuntos que não me interessam. Eu nunca gostei de ser obrigado a fazer algo que eu julgava desnecessário apenas por que era uma obrigação para me enquadrar no sistema tradicional. Escola, faculdade, estágio, emprego no escritório, promoções, aposentadoria… finalmente viajar. Não era isso o que eu queria do meu limitado tempo na Terra. Ainda que apaixonado pela programação, eu só pensava em gastar o meu tempo com projetos que me motivaram, e não corrigindo bugs em uma empresa apenas por necessidade do seu dinheiro.


Igor: Valorizo muito meu tempo e por isso não troco meu tempo por dinheiro. Já tive a oportunidade de construir muita coisa em cripto e ganhar dinheiro operando, então isso me permite ter um estilo de vida com muita liberdade e essa liberdade tem um preço. Hoje eu poderia estar em uma empresa e estar ganhando mais, mas minha liberdade tem um preço que não troco facilmente. Eu valorizo o fato de ser jovem, poder fazer o que eu quiser quando eu quiser e não ter amarras. Se tu fecha um acordo, aí passa a ter regalias mas vejo um salário fixo pingando na conta todo mês como um dos venenos da vida moderna


Qualquer iniciativa ou projeto com alto grau de comprometimento que avalio hoje, só me atrai se tiver a possibilidade de fazer meu patrimônio multiplicar significativamente em 4-5 anos. Se não, não tem porque trocar meu estilo de vida e liberdade por só ganhar algum dinheiro a mais, sendo que marginalmente isso não representa muito pra mim, não vai mudar de patamar de vida. Por exemplo, a primeira vez que eu saí mochilando, eu tinha tempo mas não tinha dinheiro. Hoje eu viajo, tenho dinheiro pra fazer o que eu quero. Agora estou conversando, tem uns VCs interessados na minha operação, mas se for pra ter outro nível de responsabilidade, precisa ser pra ganhar muito, escalar a operação, colocar gente pra trabalhar pra ter mais liberdade em poucos anos e ter outro nível pra poder me divertir e aproveitar a vida.

O negócio é não deixar dinheiro me dominar. Eu já fui muito fodido de dinheiro e isso dominava muito minha forma de agir. E agora vivo bem, uma vida normal, que gastando da forma como estou, tô bem tranquilo. Então tento ter essa sabedoria - não queria usar essa palavra- de ter pé no chão e saber que dinheiro não necessariamente vai te trazer mais benefícios. Você pode estar vendendo seu tempo e ter menos liberdade do que poderia ter com seu nível de vida atual. Vejo muito amigo meu que ganha grana, ganha bônus e fica preso em empresa porque não sabe viver sem salário. Salário é um mal pra humanidade porque as pessoas ficam nessa, quanto tu ganha por mês, como você paga suas contas. Estão acostumados a ter salário, ter estabilidade, ficam nessa de ganho quanto, gasto tanto e ter uma organizando sendo que na verdade isso é bem frágil. Porque a pessoa sabe fazer só uma coisa, não aprende nada. Se perder o trabalho, vai precisar arrumar algo parecido. Não é dinâmico .


Eu vivo caçando oportunidades, coisas que posso fazer pra ganhar dinheiro. Tem vez que eu ganho muita grana, tem vezes que perco muita grana e na proporção que eu ganho ou perco nem faz muita diferença. O mercado está derretendo e eu não to nem ai porque sei que minha tomada de decisão está certa, eu estou confiante nas minhas posições. Ganhar ou perder é um reflexo da aleatoriedade e as pessoas têm medo disso porque elas não sabem tomar decisões.


Eu me vejo como um caçador na floresta que a cada hora lida com um tipo de coisa e assim vou me tornando um especialista da floresta. Enquanto que a maioria das pessoas estão vivendo em um desenho na fazenda onde estão acostumadas com ração e leite e se um dia faltar isso, vão passar fome.


Eu gosto dos caminhos mais difíceis que vão me desafiar, que vão me agregar mais. Se percebo que uma decisão minha está sendo tomada por conforto, isso me deixa desconfortável, então deixa de ser confortável. É até um mecanismo interessante. Hoje minha vida é entregue à aleatoriedade e acho que sei me expor aos riscos e tomar vantagem disso, na vida e no mercado.


De degen para degen, o que é isso?


Rafa: O que é ser um degen pra você?


Igor: Degen acho que é bem essa prática, primeiro tu testa, entra e depois avalia melhor se valeu a pena. Precisa ser rápido, não dá pra pensar muito. De tempos em tempos entro em algumas coisas na loucura e depois avalio. É skin in the game, dá pra fazer muita coisa se tu tem um bom gerenciamento de risco, que você toma porrada o tempo todo e nem sente.


Eu não faço loucura com o capital. No começo eu tomava mais risco. Agora eu mais protejo o patrimônio e faço apostas com bom risco e retorno. Os trades maiores, onde vejo maiores oportunidades, aí entro mais pesado. Vou entrando pequeno, testando até que o trade bom aparece na sua frente e tu pensa, caralho, preciso colocar um caminhão de dinheiro aqui, que a probabilidade de acertar o trade aqui é alta, então é meio que ficar esperando aparecer a oportunidade pra enfiar o pé. Eu tenho uma relativa boa assertividade. Não precisa operar toda hora, mas se você opera com seu feeling e vai melhorando isso, é uma forma de operar que tende a funcionar bem.


E fora isso, seguro as posições de longo prazo. Se você entrar na minha corretora agora, tem compra abaixo de US$20K e venda acima de US$60-80K. O plano já está desenhado, é uma questão de esperar bater e quando bater, vai ser uma boa operação.


TryNinja: É ter a fé de arriscar uma parte do seu portfólio em um projeto que pode colapsar a qualquer momento, mas ainda saber a hora de sair e quais bombas evitar. Como já diria um assaltante de bancos de um filme hollywoodiano: "in and out”.


Quais projetos, Degen?


Rafa: Atualmente, quais tipos de projetos chamam mais sua atenção? Como você encontra os projetos?


Igor: RebaseDAOs com mecanismo de Treasury, que é parecido com o que um banco central faz. Olympus por exemplo tem uma comunidade muito forte e um Discord visionário. É um mecanismo bonito de se ver, emitir bonds, definir juros, que é algo extremamente experimental, é o início, o teste de algo que pode vir a dar certo e terá eles como referência. O mecanismo de treasury dá pra usar em outras coisas como um mecanismo de incentivo para alinhar jogadores. Nem sempre dá certo, mas é algo que eu gosto de ver, coisas que tem potencial de mudar estruturalmente o mercado. As coisas precisam de tempo, precisam ser testadas. Muita coisa vai morrer e algumas poucas coisas vão ficando e com base nessas experiências a galera vai aprendendo e tendo experiência, desenvolvendo em cima. Então só vamos saber daqui um tempo o que vai funcionar ou não. Algumas podem ser mudanças de paradigma. A cada 6 meses em cripto tem uma coisa inovadora, mas depois de outros 6 meses aquela coisa já se foi. Mas isso é bonito, a galera vai gerando inovação. Tu alia a criatividade do ser humano com o potencial de cripto de mover valores, de alinhar pessoas de forma trustless - fazer com que elas efetuem transações sem precisar confiar umas nas outras porque o ecossistema permite que elas se alinhem e tenham incentivos para isso.


TryNinja: Nos tempos em que eu quero menos tempo de tela (como agora), uma farm DeFi cujo contrato é o fork direto de projetos super testadas e auditadas (como Uniswap ou Balancer) e onde eu possa colocar nada mais do que algumas stablecoins. Farmo o token de governança -> dumpo pra mais stables -> ??? -> profit.


Como encontrar bons projetos?


TryNinja: No lugar mais rico de sabedoria de todo o ecossistema crypto: o “crypto-twitter”. Você só precisa saber quais contas seguir (não, não estou falando daqueles influencers pagos que te mandam comprar shitcoins).


Também leio alguns grupos no Telegram e Discord focados no yield farming e DeFi (principalmente com stablecoins).


Igor: Twitter! Eu venho tratando com muito carinho cuidando das pessoas que eu sigo e deixo de seguir. Basicamente quem fala de preço eu deixo de seguir e quem fala de coisa fundamental, que agregam valor, eu sigo e dou retweet e vou deixando o feed cada vez mais personalizado pro que eu gosto. Além disso, uma porrada de grupos que chega muita informação todo dia. Busca ativa por boas fontes de informação é um dos melhores investimentos do seu tempo a longo prazo.



Filosofia e Conselho dos Degen


Igor: Cada pessoa vai ter uma forma de ver a estabilidade, mas como eu sou extremamente inquieto, estou acostumado a lidar com altos e baixos em todos os sentidos.


É bom ter estabilidade e conforto, mas isso também envenena a alma, tende a enfraquecer. Você não cresce se não se permite ser testado. Existe uma ilusão das pessoas de achar que as coisas são estáveis, quando na verdade existem riscos ocultos que elas ignoram e que podemter consequências no futuro. Como alguém que está em um emprego há 8 anos e acha que está estável. Mas se for um emprego privado a pessoa pode simplesmente ser mandada embora, a empresa falir, etc. Se for um emprego público, seu reajuste pode não cobrir a inflação, e quem sabe até um dia o governo não muda as regras do jogo?. Se tu não está buscando crescer, você está diminuindo. Se você está estável, você está encolhendo. Todo mundo tem capacidade de fazer as coisas, buscar mais, independente de quem seja.


Uma coisa que eu vejo na Tailândia, é um país relativamente pobre, custo baixo, país de terceiro mundo. Mas não tem gente pedindo dinheiro na rua, é raro. Mesmo sem estudo, as pessoas empreendem muito. Tem um carrinho pra vender comida na rua e já consegue sustentar a família. E claro que o Brasil nem permite isso, mas o brasileiro divide muito o trabalho da vida pessoal. Acho que quanto mais fluido isso, mas consegue se dedicar e ser melhor no que tu faz. Quando a relação é quebrada, é difícil, trabalho sempre vai ser desprazer. E se tu ta fazendo coisas desprazerosas todos os dias, você não está sendo estável. Você está se vendendo barato pra chegar em casa e assistir Netflix. Acho que é desperdício de vida. Ter um emprego e somente almejar uma promoção de 20%. Eu gosto de quem empreende, de quem quebra a cara. Claro que entendo quem tem dependentes, têm filhos e precisa garantir a comida. Mas eu gosto mesmo é de quem busca, tenta, quebra a cara e começa de novo.


Um dos meus maiores aprendizados como nômade é que não precisamos de muita coisa para viver. Precisamos de um teto para dormir, comida e saúde. Todo o resto é supérfluo e é criação da nossa cabeça. Por mais que percamos ou ganhamos as coisas, sofremos mais do que precisamos. No próprio acontecer do fato, nem sofremos tanto quanto esperávamos. E você vai se adaptar com o tempo.. Mas é difícil lidar porque nossa cabeça é primitiva em relação a nossa forma de viver. Nós não somos feitos para o nosso mundo. Somos de um período onde a preocupação era sobreviver, comer, dormir e fugir de animais perigosos e hoje a tecnologia permite que tenhamos tudo muito fácil e por isso as pessoas não tem sentido na vida e se perdem, porque já temos o que precisávamos para ter nossa subsistência. O trabalho a ser feito é perceber que no nosso tempo hoje temos um software para um hardware que não é compatível. A questão é como fazer os ajustes para viver melhor.


TryNinja:


Em crypto: “Nunca case com suas bags” (saiba a hora de dumpar a sua shitcoin).

Na vida: “Vá em busca de viver exatamente como você quer viver”


1. Sobreviva (principalmente no bear market). A maior parte das pessoas acaba devolvendo todo o lucro por bobeira ou ganância. Saiba a hora de se contentar com o que tem quando o mercado esfria.


2. Ainda no clima de “nunca case suas bags”, saiba entender o lado do “fudder” e por que ele pode ter um ponto. Nunca fique cego só porque é mais conveniente acreditar que sua shitcoin é perfeita.


3. Se quiser ser nômade enquanto ainda tem pouco, saiba viver com pouco. Parece óbvio, mas a maioria das pessoas só consegue se ver viajando quando com luxo. Saiba que todo perrengue é uma experiência e uma história verdadeira para contar.



''Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis".
George Box