O dinheiro nunca mais será o mesmo após a crise (e a guerra): criptomoedas e o dinheiro-commodity




Em inúmeros artigos, citei o fato -pouco intuitivo, mas extremamente esclarecedor- de que dinheiro é puramente uma alucinação coletiva. O que quer que seja que a coletividade considera dinheiro, será.


A definição do que é dinheiro depende unicamente do seu contexto sócio-econômico. Das conchas wampum usadas entre 1637 e 1661, na Nova Inglaterra até as criptomoedas, o dinheiro é aquilo que preenche, da melhor forma possível, as necessidades das sociedades.


Hoje, talvez estejamos diante de um desses momentos históricos, fascinantes e assustadores, onde testemunharemos o dinheiro mudar de forma. De status. De mãos.


Após a Segunda Guerra Mundial, em julho de 1944, 45 países concordaram com o Bretton Woods, um sistema que instituiu o dólar como moeda do sistema financeiro mundial e referência para todas as moedas do mundo. Isso já faz quase oitenta anos. Como o dinheiro depende da alucinação coletiva, nenhuma moeda é capaz de suprir as necessidades de todas as gerações, porque a cultura é ontologicamente algo em constante mudança. Isso significa que as moedas também tendem ao fim, o dinheiro sempre tende a mudar de forma. E as crises, assim como as guerras, são excelentes catalisadores de mudança.


Zoltan Pozsar, consultor sênior do Credit Suisse, do Departamento do Tesouro dos EUA e professor visitante no FMI sobre desenvolvimentos macro financeiros globais, enfatizou em carta na última segunda-feira (7/03/2022), essa transformação do dinheiro. Para Pozsar:


‘‘Estamos testemunhando o nascimento de Bretton Woods III – uma nova ordem mundial (monetária) centrada em moedas baseadas em commodities no Oriente que provavelmente enfraquecerá o sistema euro-dólar e também contribuirá para as forças inflacionárias no Ocidente.’’


Durante os últimos anos, a questão do enfraquecimento do sistema euro-dólar tem sido muito debatida, seja pela perspectiva de que a moeda de uma Nação não pode ser usada como garantia do sistema financeiro global, seja pela inflação berrante, que coloca o Federal Reserve (FED) em um beco sem saída entre permitir que a inflação destrua o poder de compra das pessoas e empurre multidões à calamidade ou em aumentar a taxa de juros e dar o passo final do sistema financeiro à recessão econômica.


No que concerne à primeira questão, o uso do euro-dólar como moeda do sistema financeiro global dependia de uma fundação básica na confiança de que as reservas de dólar de um país poderiam - se não mais ser convertidas em ouro - serem resgatadas. Mas essa fundação desmoronou quando o G7 aprendeu as reservas cambiais da Rússia.


Independente do julgamento político e moral da ação apreensão, a questão aqui é que as premissas do sistema financeiro foram abaladas. E o dinheiro nunca mais será o mesmo. E se a situação não fosse por si extremamente drástica. Estamos falando de sanções a uma nação que prove 40% de toda energia da Europa, em alguns países - como a Alemanha- o número chega a 60%.


E mais do que tudo, estamos em um contexto onde as economias são extremamente correlacionadas. As sanções à Rússia destroem a base do sistema financeiro mundial e o corte no suprimento de energia da Europa ameaça a estabilidade financeira do Ocidente e de todas as bolsas e mercados financeiros do mundo.


Há alguns anos me pergunto o que substituiria o dólar como moeda global. Acredito que após a crise, veremos o nascimento de uma moeda lastreada a uma cesta, compostas por ouro, prata, commodities, ativos naturais e de Bitcoin.


Qualquer ativo que puder ser inflacionado ou depender exclusivamente de nações ou blocos econômicos, não terá lugar na reorganização do sistema financeiro. Todos vão procurar abrigo. E não é possível se abrir no que pode ser gerado indeterminadamente e no que pode ser censurado, roubado ou aprendido por grupos de interesse específico.


De El Salvador a China, nenhum país aceitará que um só país ou ´´bloco´´ tenha poder sobre um padrão global. As mesmas forças que criação a força da demanda do Bitcoin, será vista nos países, rumo a descentralização de um padrão financeiro - que nem por isso será menos distópico.


O mundo é fascinante, mesmo que nem sempre seja animador.


Nesse contexto, estou curiosa sobre dois desdobramentos: o futuro da China e do mercado de energia renovável.


A China parece ter muito o que ganhar com o caos. Ela se beneficia da erosão da hegemonia do padrão euro-dólar, tem a Rússia como aliada e muito dificilmente ela será afetada por sanções - já que se torna uma das únicas fornecedoras capazes de abastecer os mercados.


Nesse contexto, os países europeus têm muito incentivo para desenvolver matrizes energéticas sustentáveis e diminuir sua dependência com outros países. Talvez essa seja uma externalidade positiva, dentro de todo caos e tristeza vivido.


''Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis".
George Box